Rio, 09 (AE) - A CPI do Narcotráfico vai entrar, na próxima terça-feira (14), na Procuradoria Geral da República, com pedido de indiciamento do presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, José Carlos Gratz (PFL), por corrupção ativa, contravenção e envolvimento com o crime organizado no Estado. A comissão ingressará também na Assembléia capixaba com pedido de cassação do deputado por falta de decoro parlamentar. A CPI considera que ele mentiu em seu depoimento prestado ontem (08).
"Tudo que nós suspeitávamos sobre o ele, agora está provado", afirmou o relator Moroni Torgan (PFL-CE). Gratz, que autorizou a quebra de seu sigilo bancário, fiscal e telefônico, já respondeu a inquérito por formação de quadrilha, homicídio e contravenção e está sendo processado por crime eleitoral e contrabando. Além do deputado, a CPI pretende ainda pedir a abertura do sigilo de mais 35 pessoas que teriam envolvimento com crime organizado, narcotráfico e contravenção - entre as quais, dois irmãos e uma sobrinha de Gratz, e 19 integrantes do braço capixaba da quadrilha de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, desmantelado em 1996.
Hoje, durante a última sessão da CPI no Estado, Torgan exibiu um contrato social da boate Aruba Café, em Vitória, o qual prova a ligação do presidente da Assembléia com o empresário Francisco Marcelo de Sousa Queiroga. Os dois aparecem como sócios no investimento com mais outras duas pessoas. No depoimento à comissão, porém, Gratz garantiu nunca ter tido qualquer relação com Queiroga, referindo-se a ele apenas como "um conhecido", e que só tinha participação em dois bingos - um em Vitória e outro em Campinas.
Em agosto, Queiroga foi denunciado pelo Ministério Público por estelionato, sonegação fiscal e falsidade ideológica após investigação policial de fraudes no Superbingão Real - empresa com sede em Vitória e filial em Brasília, que, segundo a CPI, seria usada para lavar dinheiro da contravenção e do narcotráfico. O promotor Evaldo Martinelli, responsável pelo caso, disse em seu relatório final das investigações que o empresário teria ligações com o Cartel de Cáli, da Colômbia. Em depoimento à polícia, depois desmentido em juízo, Queiroga e seu sócio João Amado dos Santos Godoi citam Gratz como terceiro componente do Superbingão.
A CPI também conseguiu provar a ligação da contravenção com a Scuderie Le Coq, que, segundo a Procuradoria Geral da República no Espírito Santo, seria o braço armado do crime organizado no Estado. Os deputados receberam cópia do laudo pericial sobre o estouro, em junho de 1994, da banca Periquito, que funcionava em uma casa lotérica no Centro de Vitória. No local, foi encontrado um certificado de honra ao mérito concedido pela Le Coq a Luiz Carlos Machado, gerente da banca, cujos os donos seriam Gratz e o banqueiro carioca Ailton Guimarães, o Capitão Guimarães.
"Não se trata do fato de ser um jogo inofensivo, como disse o deputado Gratz, mas uma verdadeira estrutura de bingos montada em sangue e corrupção", afirmou Torgan. Segundo a CPI, o presidente da Assembléia capixaba não conseguiu explicar também o seu envolvimento na morte de um dos seus cabos eleitorais, o comerciante João Luiz da Silva, assassinado em julho, dois meses depois de pagar, com cheque sem fundos, uma dívida de R$ 20 mil a Gratz. Apesar de garantir ter abandonado a contravenção há 10 anos, o presidente da Assembléia também não explicou, no depoimento ontem (08), seu relacionamento com o bicheiro José Carlos Martins Filho, o Carlinhos de Campos, preso pela polícia carioca com uma carteira de assessor parlamentar do deputado em 1994.

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