CPI pedirá auditoria nas contas de deputado federal do PDT
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 31 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara vai pedir à Receita Federal que faça auditoria na contas bancárias do deputado federal Wanderley Martins (PDT-RJ), que é subrelator da comissão e responde a inquéritos na Justiça Federal por prevaricação, corrupção ativa e participação no tráfico internacional de armas.
Segundo laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC), que periciou a movimentação financeira do parlamentar entre 1990 e 1995, Martins teria recebido créditos 360% acima dos vencimentos em 1992. Em 1993, foram 279% a mais, saltando para 1.138% em 1994 e 414%, em 1995.
"Queremos que a Receita faça uma comparação técnica entre os rendimentos e os proventos do deputado para que ele, então, possa responder a origem dos recursos que, porventura, tenha recebido a mais", disse o deputado Paulo Baltazar (PSB-RJ). O parlamenter coordenou hoje sessão da CPI, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), centro do Rio. Foram tomados depoimentos de seis pessoas ligadas a Martins, na época em que o parlamentar era delegado da Superintendência da Polícia Federal (PF) no Rio.
Os deputados - além de Baltazar, também participaram da sessão Éber Silva (PDT-RJ) e Waldimir Moka (PMDB-MS) - concluíram pela inocência, "por enquanto", de Martins. "Pelos depoimentos que tomamos, não vimos nada que prove qualquer coisa contra o Wanderley", disse Silva.
"Ele apenas poderá responder por crime contra o sistema financeiro nacional por ter trocado moeda brasileira por dólares em 1992, que, apesar de ilegal, era normal devido à inflação galopante em que vivíamos." Na ocasião, Martins chefiava a seção de Operações de Prevenção e Repressão a Crimes Fazendários.
Entre os ouvidos pelos parlamentares, estava o doleiro libanês Elias Michael Kanaan, acusado de tráfico internacional de armas. Kanaan depositou, em dia 14 de julho de 1992, Cr$ 10 milhões na conta de Martins, que entregou ao doleiro o equivalente a US$ 2.600,00. Kanaan, porém, negou que conhecesse o deputado e que toda a operação de venda de dólares foi intermediada pelo delegado federal Aloísio Paes Borba Nogueira, também ouvido hoje pela CPI.
"O Borba confirmou que apresentou o Kanaan a vários delegados da PF e foi ele quem realizou todas as operações, inclusive a de Martins", disse Baltazar. Segundo o deputado do PSB, em 1992, Kanaan era acima de qualquer suspeita e muito influente na PF. "Ele ajudou a construir a sede da Interpol (Polícia Internacional) no Rio, foi condecorado pelo superintendente da PF na época, Romeu Tuma (hoje, senador pelo PFL de São Paulo), e até recebeu no aeroporto o primeiro-ministro do Líbano", disse.
Em 1995, porém, Kanaan foi acusado por Nader Mustafat Beydoun de fazer parte de uma sociedade com o irmão dele, Nasser Baydoun, no tráfico internacional de armas. Nasser Baydoun foi morto em 1996. Hoje, o doleiro negou que tivesse qualquer ligação com o traficante, mas confirmou que manteve com ele uma conta bancária conjunta, em Miami. "Tínhamos uma relação de amizade e iríamos montar uma loja em Miami, mas o negócio não deu certo e eu cancelei a conta", disse Kanaan.
À tarde, os deputados dedicaram-se a tomar depoimentos quem poderia esclarecer o suposto envolvimento de Martins com o traficante Walter Gomes de Carvalho Filho, mais conhecido como "Valtinho". Em 31 de maio de 1997, Martins, então candidado a deputado, aparece num vídeo ao lado do acusado de tráfico, durante churrasco no Morro da Boa Vista, em Niterói (Grande Rio). Martins nega que conheça "Valtinho".
O agente Richard Hebert Knosel, da PF de Niterói, e o sub-tenente da Polícia Militar Araquém dos Santos Oliveira, que, em 31 de maio, estava como oficial de dia no 12.º Batalhão da PM (Niterói), deram força à defesa de Martins. Segundo eles, o rosto de "Valtinho" não era conhecido na época. "Se ele entrasse no meu batalhão naquela época, seria capaz de cumprimentá-lo", disse Oliveira. Para Knosel, mesmo que Martins tivesse reconhecido o traficante, seria impossível decretar a prisão dele. "Se fizesse isso, como ele iria sair do morro, já que estava como candidato e não como delegado?", perguntou.
Na próxima semana, a CPI pretende ouvir o delegado Onézimo das Graças Souza, responsável pela investigação do envolvimento de Kanaan com o tráfico internacional de armas, em 1995. Por intermédio de Martins, então chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, Souza pediu à Justiça permissão para realizar escuta telefônica com o objetivo de investigar o crime organizado.
As fitas com o resultado das escutas nunca foram entregues ao Ministério Público (MP). O deputado tem dito que não respondeu ao pedido da Justiça porque o caso era de responsabilidade de Souza. O nome de Martins aparece numa das quatro agendas do doleiro apreendidas pela PF.


