Brasília, 26 (AE) - O Banespa e os fundos de pensão estatais são os novos alvos de investigação da CPI do Sistema Financeiro. Uma frente da comissão apura a venda de títulos da dívida externa brasileira pelo Banespa ao banco J.P.Morgan, de novembro até março deste ano, e dirigentes do banco de São Paulo poderão ser convocados para explicar a operação, exposta na CPI pelo deputado Aloízio Mercadante (PT-SP).
Outra frente de investigações descobriu que a Petros - o fundo de pensão dos empregados da Petrobrás - foi um dos compradores das debêntures emitidas pela empresa Teletrust de Recebíveis S.A., empresa que teve sigilo quebrado pela CPI.
A operação realizada pelo Banespa passou a ser investigada pela CPI paralelamente às apurações sobre o caso do socorro financeiro do Banco Central aos bancos Marka e FonteCindam.
Estas apurações estão dependendo do resultado do cruzamento de dados da Receita Federal com o sigilo bancário para serem concluídas. O interesse da CPI é saber porque o Banespa vendeu títulos da dívida externa - os chamados "bradies" - abaixo da cotação do dólar, beneficiando o banco Morgan e promovendo um prejuízo estimado em R$ 172 milhões, segundo dados apresentados por Mercadante.
Desde 1994, esses títulos em poder do Banespa vinham sofrendo uma desvalorização. Em meados de 1997, chegou a 86% do seu valor de face e depois da crise da ásia, naquele mesmo ano, seu preço caiu ainda mais no mercado, vindo a atingir cerca de 50% do valor de face com a crise da Rússia.
A venda de títulos para o banco Morgan ocorreu entre novembro de 1998 e março de 1999, momento em que os títulos atingiram um pico de desvalorização, ainda segundo levantamento do petista.
Assim que a CPI recebeu a denúncia de favorecimento à instituição estrangeira pelo Banespa, o senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), então presidente interino da comissão, ouviu a seguinte explicação da direção do Banespa: a venda dos títulos ocorreu dentro do processo de preparação para a privatização do banco, e teria sido negociada diretamente pelo Banco Central.
"Estamos investigando cuidadosamente essas operações do Banespa e tomaremos as providências necessárias quando tivermos as conclusões", afirmou o presidente do PMDB, senador Jader Barbalho (PA), que propôs a criação da CPI.
Ele não descarta a convocação de dirigentes do Banespa à CPI depois que todos os dados estiverem levantados. "Sou favorável à aprovação de qualquer convocação que não fuja aos fatos investigações pela CPI", disse Jader, que hoje recebeu o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia em seu gabinete, para uma conversa reservada.
Fundos - O senador Roberto Freire (PPS-PE) levará hoje à CPI, na reunião interna marcada para a manhã, documento comprovando que a Petros comprou, entre novembro de 1996 e fevereiro de 1997
R$ 28,9 milhões em debêntures lançadas pela Teletrust, com vencimento previsto para 1º de julho.
Esta empresa está sendo investigada pela CPI por ter emitido R$ 368 milhões em debêntures desde 1996, quantia que chamou a atenção dos senadores que estranham o fato de a Teletrust ter um capital próprio de R$ 10 mil e ter o mesmo endereço do escritório do advogado Luiz Carlos Barreti, ligado ao Banco Marka. Um dos sócios da Teletrust é Roberto Cruz Moisés, ex-cunhado do dono do Marka, Salvatore Cacciola.
"Essa emissão já é uma extravagância para uma empresa virtual
mas temos informações de que outros fundos de pensão também compraram debêntures da Teletrust", afirmou o senador Freire, que estranha o fato de a Petros ter investido em títulos de uma empresa que não tem seu próprio telefone no catálogo, enquanto investiu, na mesma época, em debêntures lançadas por empresas do porte da Odebrech e Play Center.
O deputado Ricardo Maranhão (PSB-RJ), que atua numa investigação paralela sobre o caso, afirma ter dados que comprovam a compra das debêntures sob suspeita também pela Previ
o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.
"A Previ tem R$ 15,7 milhões em debêntures lançados por esta empresa, que já está inadimplente desde abril de 1998", afirmou Maranhão, que integra o conselho curador da Petros.
O relator da CPI, senador João Alberto (PMDB-MA), vai hoje ao Rio de Janeiro acompanhado do senador Saturnino Braga (PSB-RJ) e de dois assessores da CPI para selecionar documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que autoriza a emissão de debêntures.
Mas a CPI vai requerer também a conclusão das sindicâncias feitas pela CVM sobre a emissão de debêntures pela Teletrust, que já teria resultado no afastamento de um funcionário, conforme informações obtidas pelos senadores pela própria CVM. (Colaborou Gerson Camarotti)

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