São Paulo, 03 (AE) - Os grandes traficantes de São Paulo "lavam" o dinheiro ganho com as drogas em fazendas, revendedoras de veículos, hotéis, restaurantes e aeroclubes. Têm atividades políticas ou boas relações com pessoas que exercem cargos públicos eletivos ou não.
Os ladrões de automóveis têm esquemas para desaparecer com os veículos, que são vendidos com documentos falsos no Brasil ou em países vizinhos. A grande maioria acaba nos desmanches.
As quadrilhas especializadas em roubar cargas provocaram prejuízo de US$ 120 milhões às empresas em 1998. O crime concentra-se na capital e Grande São Paulo. Os ladrões têm a cobertura de "policiais" e agem livremente.
Essas conclusões, depois de quatro anos de investigações
estão no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, da Assembléia Legislativa de São Paulo, divulgado hoje pelo relator, deputado Elói Pietá (PT). As apurações da CPI também atingiram o jogo do bicho, a lavagem de dinheiro, fraudes financeiras, a falsificação de remédios, o contrabando, a corrupção, a sonegação fiscal e os crimes contra a ordem econômica. Os grupos de extermínio e os roubos a bancos também foram analisados.
Segundo Pietá, o crime organizado está-se instalando cada vez mais em São Paulo. "Muitas autoridades encaram os criminosos como participantes de quadrilhas, mas a situação é diferente." Para o deputado, é preciso adotar medidas urgentes, pois, do contrário, "em pouco tempo, a situação vai agravar-se ainda mais." Desde 10 de abril de 1995, quando se instalou a CPI, 141 pessoas foram ouvidas: autoridades da área de segurança pública, policiais, especialistas, pesquisadores, testemunhas e suspeitos. Como resultado, ocorreram 29 prisões em flagrante e foram apreendidos mercadorias ilícitas e documentos que resultaram em processos e condenações.
O relatório da CPI critica a Secretaria da Fazenda por não se ter interessado em fiscalizar o comércio de veículos usados ou de peças. "A CPI verificou que a liberdade de compra e venda de mercadorias sem nota fiscal é um estímulo decisivo para o comércio de mercadorias obtidas com o roubo de cargas."
Corrupção - No capítulo do tráfico, o relator afirma que o estudo de muitos casos pela CPI mostrou como as organizações do tráfico têm conseguido corromper integrantes das forças policiais. "E para conseguir dinheiro para as drogas as organizações estão ligadas com roubos, furtos e roubos de veículos, assaltos a bancos e roubo de cargas."
Os grandes traficantes paulistas utilizam os Estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso para chegar às fronteiras com o Paraguai e Bolívia. "Embora extensas, as fronteiras constituem um gargalo para o tráfico, como se fosse o pescoço de uma garrafa", diz o relatório. "No pescoço, estão os grandes e médios traficantes, com contatos internacionais, e ele vai abrindo para o mercado interno onde estão as centenas de pequenos traficantes paulistas e os milhares de microtraficantes."
As quadrilhas de traficantes em São Paulo, afirma a CPI, trocam informações, têm vínculos e fazem transações entre si quando falta a mercadoria. "As organizações relacionam-se do atacado para o varejo, do atacado para o atacado e do varejo para o varejo", afirma Pietá.
No relatório, de 40 páginas, a CPI sugere o saneamento nas duas polícias para impedir a presença de "braços das organizações criminosas", o afastamento dos policiais por enriquecimento ilícito, que fazem parte das quadrilhas, e a criação da Superintendência de Polícia Fazendária, subordinada à Secretaria da Segurança para combater o contrabando, o furto e o roubo de veículos e para a descoberta da lavagem de dinheiro dos traficantes. Ele sugere a formação de uma força-tarefa das Polícias Civil e Militar para combater o tráfico.

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