CPI investiga ligação de advogada de álvares com ex-prefeito de Serra
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sexta-feira, 17 de dezembro de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 17 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara vai investigar a ligação da advogada Solange Antunes, assessora do ministro da Defesa, Élcio álvares, com o ex-prefeito de Serra (Grande Vitória) Adalton Martinelli, acusado de ser um dos líderes do crime organizado no Espírito Santo.
Decreto de 27 de março de 1992, assinado por Martinelli - então prefeito - em mãos da CPI, mostra que Solange foi contratada como advogada do município por concurso público.
"Estamos investigando a possibilidade de esse concurso ter sido fraudado", afirmou o deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ). O ex-prefeito de Serra está preso preventivamente, acusado de ter sido um dos mandantes do assassinato do advogado Carlos Batista de Freitas, desaparecido e dado como morto em junho de 1992.
Martinelli é um dos fundadores da Scuderie Le Cocq, considerada pelo Ministério Público Federal (MPF) como braço armado do crime organizado no Estado. Na quarta-feira (15), a CPI aprovou a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dele e da assessora de álvares.
Por enquanto, a CPI tem provas de que Solange cometeu ato administrativo ilegal - acúmulo de cargo público. Ela não abdicou do salário de R$ 1.700,00 que recebia da prefeitura de Serra quando foi nomeada, em 1º. de fevereiro, para o ministério
em cargo comissionado DAS-5, salário de R$ 4.900,00.
"Se ela foi nomeada para o Ministério da Defesa, sem ser requisitada à prefeitura de Serra, certamente, cometeu crime de falsidade ideológica", afirmou Biscaia. Para ser nomeada para a Defesa, Solange teria de prestar declaração, em ofício, de que não exercia cargo público em nenhum governo. "Se fez isso, ela mentiu", conclui o deputado, que pediu ao Departamento de Recursos Humanos do Ministério da Defesa tal declaração.
A prova de que Solange não foi requisitada, porém, está no processo número 269.1497/99, aberto pelo secretário de Administração da prefeitura de Serra, Audífax Pimentel Barcelos, em outubro. No processo, o secretário mandou suspender o pagamento do salário de Solange como advogada do município, assim que soube que ela era assessora de álvares. Procurado pela reportagem, Barcelos não foi encontrado. A suspeita da CPI de que o concurso para a prefeitura de Serra, do qual Solange participou, teria sido um "trem da alegria" recai sobre a forma de ação da Scuderie Le Cocq. A organização criminosa é acusada pela Polícia Civil capixaba de montar um sofisticado esquema de extorsão de dinheiro de prefeituras da Grande Vitória.
Segundo investigações da polícia, empresários ligados à organização, entre os quais Martinelli, financiavam campanhas de prefeitos e, após as eleições, recuperavam o dinheiro investido com juros. Os recursos vinham por meio de licitações e contratos superfaturados e concursos públicos fraudulentos, que serviam para contratar policiais e advogados ligados à entidade.
"Quem não aceitava o esquema, morria", contou o vice-prefeito de Cariacica (Grande Vitória), Jésus Vaz, durante a visita da CPI do Narcotráfico a Vitória, há dez dias. Vaz, que se negou a entrar no esquema e sofreu um atentado à bala, denunciou que só em Cariacica a Le Cocq extorquiu R$ 8 milhões dos cofres da prefeitura.
Martinelli admitiu para os deputados da comissão ter doado R$ 6 mil em dinheiro ao cabo Dejair Camata, na véspera da eleição para a prefeitura de Cariacica e que, depois, foi recompensado com obras no município, por meio da empresa de aluguel de máquinas Zorzal, de propriedade dele . Procurada pela reportagem, Solange não retornou as ligações.


