CPI dos medicamentos vem ao Paraná
Para deputados, a prisão do dono da Bella Farma por receptação de carga roubada não deve ser vista apenas como caso de polícia
Arquivo FolhaRAMIFICAÇÕESOs deputados Márcio Matos e Max Rosenmann fazem parte da comissão que virá ao Paraná fazer as investigações
Edinelson Alves
De Brasília
Motivado pela apreensão de medicamentos roubados em Curitiba, na segunda-feira, a CPI dos Medicamentos criou ontem uma comissão formada por quatro deputados especialmente para investigar no Paraná tudo o que possa estar relacionado com roubo, falsificação, receptação e comercialização de remédios. A proposta para a investigação foi feita pelo deputado Vicente Caropreso (PSDB-MG), argumentando que a prisão do proprietário da rede de farmácias Bella Farma, Anderson Donizeti de Lima, não pode ser tratada simplesmente como um caso policial, mas deve ser investigada para se descobrir possíveis ramificações dessa ação criminosa.
Assim que recebeu a proposta, o presidente da CPI dos Medicamentos, Nelson Marchezan (PSDB-RS), imediatamente nomeou uma comissão integrada pelos deputados Werner Wanderer (PFL-PR), Márcio Matos (PT-PR), Max Rosenmann (PSDB-PR) e Vicente Caropreso (PSDB-SC). Ainda ontem eles começaram a discutir uma linha de atuação para que possam obter o máximo de informações. Provavelmente a comissão estará em Curitiba na próxima segunda-feira para dar início às investigações.
Ouvido ontem pela CPI, o presidente da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), Fernando de Castro Marques, fez graves denúncias contra as empresas multinacionais que atuam no País. Ele chegou a mostrar um documento da Bayer revelando que essa empresa de origem alemã comercializa produtos com até 50% de descontos para as farmácias conveniadas. Ele denunciou também a entrada de medicamentos fabricados e embalados na França, Alemanha, Irlanda e até em Monte Carlo, que entram no País inclusive com uma cota específica para ser distribuídos como amostra grátis.
Essas indústrias estrangeiras estão fechando fábricas no Brasil e importando o medicamento, inclusive a embalagem, denunciou. O presidente da Alanac também denunciou que as grandes empresas estrangeiras estão pirateando plantas medicinais do Brasil, já utilizadas pela cultura tradicional para patenteá-las e depois faturar com a sua industrialização. Ele citou o caso da Espinheira Santa, que foi patenteada no Japão depois de haver sido pesquisada pela antiga Central de Medicamentos (Ceme).
Fernando sugeriu uma política nacional envolvendo os ministérios da Agricultura, Ciência e Tecnologia, Indústria e Comércio para que o Brasil possa explorar, avançar e desenvolver todo o potencial de sua biodiversidade. Alguns membros da CPI ficaram indignados com alguns fatos revelados pelo presidente da Alanac.
O relator Ney Lopes (PFL-RN) disse que vai pedir que a Bayer revele à CPI quem são as farmácias conveniadas e como funciona esse acordo. O deputado teme que exista uma conexão laboratório-médicos-farmácias, fechando todo o cerco da produção à comercialização. Ele prometeu estudar a criação de uma câmara setorial para acompanhar todas as fases do mercado de medicamentos com publicação mensal dos custos e lucros que forem apurados.
Para Arlindo Chinaglia (PT-SP), a CPI deve investigar tudo o que for possível para diminuir a exploração abusiva que existe no mercado de medicamentos. Ele disse que os médicos deveriam se atualizar para não oferecer a seus pacientes apenas remédios enviados pelos laboratórios. O médico que faz isso se transforma num vendedor de luxo, acusou. Chinaglia também disse ser inadmissível que as empresas multinacionais continuem faturando absurdos e ainda ditando as regras de mercado no Brasil, de acordo com suas conveniências de lucros.





