CPI do Narcotráfico vai ouvir Badan sobre esquema em Campinas
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terça-feira, 02 de novembro de 1999
Por Eliane Azevedo e Hugo Marques 
Rio, 03 (AE) - O legista Fortunato Badan Palhares, ex-diretor do Departamento de Medicina-Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), será chamado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico. Em dois depoimentos à comissão, o nome do legista foi associado ao esquema comandado pelo ex-deputado federal Hildebrando Paschoal e que, para os integrantes da CPI, tinha seu centro financeiro e logístico em Campinas. "Não tenho dúvidas de que vamos pegar um rastilho de pólvora através do Badan Palhares", afirmou o deputado federal Pompeo de Mattos (PDT-RS), relator da parte relativa a Campinas.
Segundo ele, Palhares foi citado pela primeira vez no depoimento do motorista Jorge Meres, que fazia parte da ala maranhense da quadrilha. Meres, uma das mais importantes testemunhas ouvidas pela CPI, disse que o laudo da morte do tesoureiro da campanha do ex-presidente Collor, Paulo César Farias, foi montado por Palhares, a mando do irmão de PC, o deputado federal Augusto Farias (PPB-AL). "Confesso que nós não demos importância, porque a denúncia era vaga", admitiu. "Mais tarde, porém, fomos verificando que 100% do que Meres contou do Acre e, depois, do Maranhão, estava certo."
Na semana passada, um novo depoimento, o do deputado estadual maranhense Francisco Caíca (PSD) reforçou os indícios que envolvem o legista. Caíca foi assessor do deputado estadual José Gerardo (PPB), apontado pela CPI como o principal dirigente da organização no Maranhão. Ele contou aos deputados que Gerardo foi o mandante do assassinato de um menino, filho de um gerente do Banco do Brasil em São Luís. O crime aconteceu há dez anos.
O gerente, identificado por Mattos apenas como Antonio, havia recusado um empréstimo para a empresa de ônibus de José Gerardo. Ameaçado, manteve a posição. Um mês depois, seu filho foi morto. O corpo encontrado não foi identificado como do garoto, numa perícia executada por Badan Palhares. Mais tarde, porém, o dentista do menino garantiu que a arcada era a do filho do bancário. "Como o Badan Palhares era famoso, ficou a dúvida", disse o deputado. "Agora, o Chico Caíca revela publicamente que quem mandou matar o filho do gerente foi exatamente o José Gerardo."
Os dois depoimentos convenceram Mattos de que Palhares tem de ser ouvido. "Ora, o Badan Palhares, do nada, apareceu no Maranhão, num crime que envolve o José Gerardo; aí, o Badan faz um laudo do PC Farias morto, controverso", argumentou. "O senhor Badan Palhares vai ter que ser ouvido e eu vou pedir a convocação dele na CPI." O presidente da CPI, deputado federal Magno Malta (PTB-ES), informou que na sexta-feira (05) ou na próxima semana, será ouvido o pai do menino assassinado.
Os dados colhidos até agora pela CPI, segundo Mattos, o fazem considerar Campinas como o "cérebro" da organização que, do Acre, ramificou-se no Maranhão, Alagoas e, suspeita-se, Rio de Janeiro. "Em Campinas, há o poder econômico, o esquema de lavagem e dali é que sai a ordem para matar no Maranhão ou o pedido de armas para o Acre", disse. "Por isso, é o lugar mais difícil de apurar, até porque tem envolvimento de policiais: como explicar que tenham sumido do IML (Instituto Médico Legal) de Campinas 370 quilos de cocaína?".
Na semana que vem, ele espera receber da Polícia Federal informações mais detalhadas das investigações, como, por exemplo
o resultado das diligências nos depósitos mantidos pelo empresário William Sozza, nos quais eram guardadas drogas e cargas roubadas. "Quando depôs, Sozza disse que os depósitos não existiam, mas o Meres trabalhou com ele, matou para ele, viveu em Campinas e deu nomes e endereços desses locais", contou Mattos.
O depoimento de Meres, aliás, foi fundamental para levantar a participação de empresários e policiais de Campinas na organização de Paschoal. Segundo outros integrantes da CPI, os deputados irão a Campinas, no dia 16, especialmente para ouvir oito empresários que estariam envolvidos com a quadrilha. Os nomes não foram divulgados, mas eles estão sendo investigados como participantes do esquema de distribuição da maior parte da cocaína consumida na grande São Paulo e em várias cidades do interior do Estado.
A quadrilha em Campinas, segundo apurou-se até agora, teria pelo menos 20 integrantes. Além do narcotráfico, haveria braços para distribuição de mercadorias roubadas, exportação de caminhões e principalmente de lavagem de dinheiro. Esta quadrilha teria ajudado a eleger alguns políticos em São Paulo e Alagoas, segundo as primeiras informações. "A escolha de Campinas foi em função de sua localização, perto de São Paulo, mas longe dos centros urbanos mais visados pela polícia", explicou Mattos. O empresário William Sozza, que está foragido desde seu depoimento à CPI em Brasília, seria um dos coordenadores da quadrilha na cidade.


