Brasília, 23 (AE) - O relator da CPI do Narcotráfico, deputado Moroni Torgan (PSDB-CE), disse hoje que há suspeitas de que Sâmia Haddock Lobo estaria administrando os negócios do ex-marido, o traficante Antônio da Mota Graça, o Curica, que está preso na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Ao depor hoje, Sâmia admitiu ter contas nos Estados Unidos e na Suíça, mas afirmou que não se lembrava dos valores. O relator disse que poderá convocar o presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, se até a próxima quarta-feira não for entregue toda a lista de pessoas que enviaram dinheiro ao exterior pelas contas CC-5 e não forem apresentados os técnicos requisitados para acompanhar as investigações.
Sâmia Haddock Lobo, que foi chamada pelos deputados de "baronesa do pó", prestou depoimento e só aumentou as suspeitas que os parlamentares tinham sobre sua atuação no narcotráfico. Sâmia não sabe os valores que tem depositados no exterior e não soube dizer se tem os recibos de depósitos. Duas contas em nome de Sâmia, com mais de US$ 700 mil foram bloqueadas na Suíça, mas a Secretaria Nacional Antidrogas já foi informada que há mais US$ 10 milhões em depósitos e bens no nome da ex-mulher de Curica, também na Suíça.
Segundo documentos revelados hoje na CPI do Narcotráfico
Sâmia teria participado da organização do tráfico de mais de sete toneladas de cocaína, apreendidas pela PF no Tocantins. Ela cumpriu pena de quatro anos em regime semi-aberto. Em seu depoimento, disse que, ao se separar de Curica, "doou" uma distribuidora de combustíveis e a metade do patrimônio de uma empresa de navegação na Amazônia à família do ex-traficante. Disse que fez isto por não concordar "com muitas coisas", sem o que seriam. Os parlamentares perguntaram sobre as fontes de renda de Sâmia e ela respondeu que há muito tempo não trabalha. Disse, no entanto, que gasta cerca de R$ 6 mil por mês com aluguel de sua casa na Vila Olímpia, mensalidades escolares de dois filhos e despesas diversas.
Mesmo sem ter uma fonte de renda, Sâmia disse que não sabe o número de advogados que lhe prestam assistência. "Se não me engano, são três", disse a ex-mulher de Curica. Arrancou gargalhadas de alguns deputados ao dizer que possuía apenas "algumas coisinhas" quando manteve relacionamento com Curica. Estas "coisinhas", segundo ela, eram três casas, sendo duas no litoral de São Paulo, uma fazenda, uma chácara e um avião. Ela foi vista várias vezes na casa do governador do Acre, de Orleir Cameli, por Guilherme Duque Estrada, que depôs na CPI. Cameli, em recente depoimento, falou sobre Sâmia com intimidade de quem a conhecia há muito tempo. Hoje, porém, ela negou que algum dia tivesse visto Cameli. "Acho que a Sâmia está tentando esconder muita coisa", disse Torgan.
BC - O relator da CPI disse que só vai esperar até quarta-feira para apresentar um requerimento convocando o presidente do Banco Central. Segundo ele, o banco está "obstruindo" as investigações da CPI ao não enviar a lista completa de pessoas que mandaram dinheiro ao exterior nos últimos cinco anos e não disponibilizar técnicos para auxiliar nos trabalhos.
A CPI vai quebrar os sigilos bancários, fiscal e telefônico de mais 40 pessoas no Acre, a pedido da Polícia Federal, para tentar provar o envolvimento de Cameli e o deputado Hildebrando Pascoal (PFL-AC) com o narcotráfico.

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