Brasília, 03 (AE) - A subcomissão da CPI do Narcotráfico que está investigando denúncias de suposto envolvimento do deputado Wanderley Martins (PDT-RJ) com o crime organizado deverá pedir à Receita Federal o levantamento das declarações de renda do deputado apresentadas nos últimos dez anos. Os deputados que integram a subcomissão querem verificar se a evolução patrimonial de Martins é compatível com a remuneração recebida por ele no período como delegado da Polícia Federal.
Essa deverá ser a última linha da investigação, porque os integrantes da subcomissão querem concluir seus trabalhos nas próximas duas semanas. Eles relatam que até agora não se levantou nenhuma prova que sustente as denúncias. Hoje de manhã, os deputados Paulo Baltazar (PSB-RJ), Waldemir Moka (PMDB-MS) e Eber Silva (PDT-RJ) ouviram reservadamente o depoimento do delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo Sousa, que há quatro anos investigou as atividades do crime organizado no Rio de Janeiro. O delegado afirmou aos deputados que, embora tenha se aposentado antes do encerramento das investigações, tem convicção de que o empresário libanês Elias Canaã, proprietário de uma agência de turismo no Rio, está envolvido com o tráfico internacional de armamento pesado.
Sousa prendeu Canaã em junho de 95 e encontrou com o empresário várias agendas contendo uma relação de nomes de policias e delegados ao lado de cifras. O nome do então delegado da PF Wanderley Martins estava na lista, em uma agenda de 92, ao lado da cifra de Cr$ 10 milhões - cerca de R$ 5.000,00. Martins sustenta que o valor correspondia a uma operação de câmbio. A versão foi confirmada por Canaã.
Segundo o delegado, o empresário teria afirmado, em seu primeiro depoimento, que trocava dólares para os policiais porque gostava de "colaborar" com a Polícia Federal. No depoimento à subcomissão, Sousa considerou essa explicação "plausível" e disse que em suas investigações não encontrou outros indícios de envolvimento do deputado com o crime organizado. Por outro lado, o delegado aposentado afirmou que, no processo que corre em segredo na Justiça do Rio, existem elementos que comprovam a sociedade de Canaã com Nasser Mustaphá Beyhond, um libanês que teria se envolvido com o tráfico de armas nos Estados Unidos e, ao ser preso, teria feito um acordo com o governo americando para entregar à Justiça outros traficantes.
Segundo Sousa, Beyhond teria entrado no programa de proteção às testemunhas, recebido US$ 1,9 milhão do governo norte-americano, feito uma operação plástica para mudar o rosto e se transferido para o Rio, onde teria montado um novo esquema de contrabando de armas, associando-se a Canaã na empresa Spark International Corporation, que teria intermediado a venda de tanques e helicópteros de guerra do Irã para o Equador, na época em conflito bélico com o Peru. Beyhond foi assassinado em junho de 95, no decorrer das investigações, em uma operação de "queima de arquivo", segundo o delegado, que ficou frustrado com a libertação de Canaã no dia seguinte ao da sua prisão.
Segundo integrantes da subcomissão da CPI, o depoimento do delegado não acrescentou novidades em relação à investigação sobre Martins. Logo após o depoimento, Sousa e Martins se encontraram nos corredores da Câmara e conversaram por quase dez minutos. Martins reafirmou ser inocente e disse que só deverá se pronunciar sobre as investigações depois de concluído o relatório. Ele adiantou, no entanto, que sua permanência como integrante da CPI do narcotráfico dependerá do julgamento de seus colegas.