Curitiba, 29 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados instalou-se hoje em Curitiba com um grande aparato de segurança e a expectativa de, nos dois dias em que pretende ficar no Estado, até realizar prisões. A primeira decisão da CPI, na abertura da sessão pública, foi aprovar requerimento de convocação do cineasta João Moreira Salles para depor na condição de convidado, sobre a relação com o traficante Márcio Amaro de Oliveira, o "Marcinho VP", a quem deu uma bolsa de R$ 1.200,00 para que escrevesse uma autobiografia e deixasse o tráfico.
O relator da CPI, Moroni Torgan (PFL-CE), disse que alguns acusados podem ser presos, dependendo da "consistência das denúncias" nos depoimentos. Os membros da CPI ouviriam as primeiras testemunhas hoje, mas, até o fim da tarde, os deputados estavam em reunião fechada, aguardando a chegada do presidente da comissão, Magno Malta (PTB-ES).
"Temos algumas denúncias reservadas que, sem dúvida, mostram uma conexão não só aqui dentro, mas até de pessoas do Estado com pessoas de fora", disse Torgan. "De acordo com a consistência das denúncias e a documentação, de imediato pedimos o indiciamento e até prisão." Há duas semanas, a CPI ouviu em Brasília cinco testemunhas, que apontaram o envolvimento de 1 parlamentar, 2 juízes e cerca de 200 policiais e empresários no narcotráfico. Os depoimentos do deputado Angelo Vanhoni (PT), que preside uma CPI no Paraná, e do delegado de Polícia Civil Adauto Abreu de Oliveira, chefe da Força Especial de Repressão Antitóxico (Fera), foram abertos.
No início da tarde de hoje, testemunhas começaram a chegar à Assembléia Legislativa, onde iriam ocorrer os interrogatórios. Algumas chegaram em carros policiais disfarçados e entraram encapuzadas, enquanto outras eram trazidas em camburões. Policiais militares, civis e federais montaram forte esquema de segurança. No plenarinho, onde serão tomados os depoimentos, somente era permitida a presença de deputados e jornalistas credenciados. Dois carros da Companhia de Choque da Polícia Militar ficaram estacionados na frente do prédio. Policiais civis à paisana circulavam pelos corredores do prédio.
O trabalho da segurança foi elogiado pelo deputado Roque Zimmerman (PT-PR). "Saí do hotel e, quando vi, já estava cercado pelos agentes federais", disse. "A segurança está ok, 25 agentes federais foram deslocados para cuidar da gente."
Zimmerman disse que os deputados ainda tentariam convencer uma testemunha, que ele considera a "mais importante" para desvendar o narcotráfico no Estado, a dar declarações à comissão. "Ela vai falar dependendo do que acontecer hoje", disse. "É a testemunha mais importante de todas por ter estado no esquema e saber mais do que todo mundo." Segundo o deputado, ela estaria temendo pela própria vida e a dos parentes.
O delegado Oliveira também diz estar sofrendo pressões desde que depôs na CPI. Ele fez revelações que podem comprometer policiais civis do Estado com o crime organizado. As informações são mantidas em sigilo. Oliveira negou, porém, que tenha dito à CPI que 200 policiais civis estariam trabalhando com o narcotráfico no Paraná, como foi divulgado. "O que eu falei, e isto está transcrito nas atas da reunião da CPI, é que existem 200 processos de policiais que respondem a denúncias por diversos casos na Corregedoria da Polícia Civil", explicou.
Hoje de manhã, o delegado recebeu três interpelações judiciais para apresentar a lista dos policiais que teriam ligações com o narcotráfico. Mas ele recomendou aos autores das interpelações - a Associação dos Delegados da Polícia Civil do Paraná, a União da Polícia Civil e o Sindicato das Classes Policiais Civis - que aguardem os resultados da CPI. "As informações serão tornadas públicas pela CPI", garantiu. O secretário de Segurança Pública do Paraná, Cândido Martins de Oliveira, disse hoje que a possibilidade de envolvimento de policiais do Estado com o Narcotráfico deve ser comprovada pela CPI antes que ele possa tomar alguma providência.

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