CPI confirma existência de tráfico no Porto de Santos
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quarta-feira, 12 de abril de 2000
Por Camila Garcia e Daniel Gonzales 
São Paulo, 13 (AE) - A CPI do Narcotráfico, instalada na Assembléia Legislativa de São Paulo desde terça-feira (11), confirmou hoje a existência de uma organização criminosa no Porto de Santos (SP) que embarca cocaína e armas para a Europa e Estados Unidos. Segundo o relator da CPI, deputado Moroni Torgan
os depoimentos de hoje não deixam dúvidas da existência do esquema de tráfico de drogas e armas no porto e mostra que o local faz parte das grandes rotas internacionais. Torgan afirmou que já tem os nomes dos intermediários da organização confirmados e de que os líderes estão sendo investigados. "Já temos os nomes dos cabeças, só falta confirmar." Os depoimentos do revendedor de carros Edésio Queija Vieito e do traficante que atuava no porto de Santos, Carlos Rodrigues de Andrade Júnior, o Carlinhos Pescador, foram feitos em sessão fechada. Segundo a deputada Elcione Barbalho, Pescador entrou para o Programa de Proteção a Testemunhas e entregou todo o esquema de tráfico no porto, onde trabalha há 20 anos. Ele foi preso com dois papelotes de cocaína. A pauta do dia previa que 18 pessoas seriam ouvidas, outras quatro deveriam ser ouvidas na Corregedoria da Polícia.
O superintendente da Receita Federal em São Paulo, Flávio Del Comuni, depôs hoje por cerca de uma hora e meia, mas não trouxe muitos esclarecimentos sobre a fiscalização no Porto de Santos, como era esperado pelos deputados. O superintendente é objeto de um inquérito movido a pedido do Ministério Público Federal com base na denúncia de Luís Andreolle, delegado da Receita Federal. Del Comuni é acusado de participar de um esquema para arrecadar R$ 1 milhão para a campanha do ex-presidente Fernando Collor para a Prefeitura de São Paulo, em 1998.
O MPF pediu a quebra do sigilo fiscal, bancário e telefônico do superintendente. O inquérito está sob segredo de justiça.
Em seu depoimento à CPI, Del Comuni mostrou como aumentou a arrecadação da Receita Federal desde que assumiu, em 1997. Explicou também as inovações tecnológicas para agilizar processos. Mostrou ainda números de autuações de contrabando. Segundo ele, em 1996 as autuações não passavam de 817 por ano, no valor de R$ 8 milhões. Em 1999, totalizaram 2.322, acumulando R$ 242 milhões.
O que mais indignou os deputados foi Del Comuni ter dito que nos últimos três anos não houve nenhuma apreensão de drogas e armas no porto de Santos, que tem 170 fiscais. "Nós já temos certeza que o porto é ponto de remessa e receptação de drogas e armas", disse o deputado Robson Tuma. Del Comuni também não soube dizer sobre apreensões nos aeroportos de Viracopos, em Campinas, e de Cumbica, em Guarulhos.
Segundo informações do superintendente, cerca de 700 mil contêiners chegam ao porto por ano, 15% deles é fiscalizado por meio de raio X e 25% por checagem aleatória. O trabalho da Receita Federal baseia-se na abertura de volumes e verificação do conteúdo. "É impossível não ter passado droga pelo porto nesse três anos, se há um tremendo tráfico ali", indignou-se o deputado Eber Silva. A opinião do deputado foi reforçada por uma testemunha encapuzada, que entrou em plenário por volta de 20h50. O homem contou que armas ingressavam em Santos ocultas em contêineres de peças automotivas, entre setembro e outubro de 99. "Eram fuzis e pistolas que seguiam para o Paraguai."


