CPI começa interrogatórios em Campinas
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segunda-feira, 15 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo e Fred Ferreira 
Campinas, SP, 15 (AE) - A CPI do Narcotráfico inicia amanhã (16) em Campinas (SP) uma longa maratona de interrogatórios em busca de provas sobre a corrupção que toma conta de setores da polícia e o suposto envolvimento do deputado Augusto Farias (PPB-AL) e do empresário Beto Zini (ex-presidente do Guarani) com a cúpula do crime organizado. A avaliação preliminar da CPI indica que a aliança de agentes policiais com traficantes de entorpecentes é "assombrosa." Atraídos por denúncias e revelações feitas por um grupo de assaltantes de caminhões capturados no Maranhão, os deputados da CPI estão convencidos de que a organização - composta também de empresários, policiais, comerciantes e políticos - instalou em Campinas um centro logístico e financeiro para a lavagem de recursos captados por meio de operações ilícitas - como contrabando, roubo de carretas com cargas, tráfico de cocaína e comércio de armamentos.
"A CPI tem indícios de que Farias esteve em Campinas", argumenta o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), sub-relator da comissão para as apurações da comissão na cidade. O nome do deputado alagoano foi citado pelo caminhoneiro e assaltante Jorge Meres, que depôs cinco vezes à CPI, a Polícia Federal e a Gerência de Segurança e Justiça do Maranhão. Meres relatou que Farias - irmão do empresário Paulo César Farias, assassinado em junho de 1996 - teria participado de reuniões em um hotel de Campinas para decidir sobre "a divisão do grupo em razão de problemas que o Maranhão representava."
As reuniões - supostamente ocorridas em 1997 -, também teriam comparecido o deputado cassado pelo Acre, Hildebrando Pascoal, o deputado maranhense José Gerardo (PPB) e o empresário Willian Sozza, estabelecido em Campinas. Proprietário de uma casa noturna e de uma loja de produtos para cães, Sozza era apontado como o cérebro da quadrilha. Na sexta-feira (12), os deputados Mattos e Robson Tuma (PFL-SP) promoveram as primeiras investigações e concluíram, sem citar nomes, que "tem gente acima do Sozza."
Ainda, segundo Meres, o deputado Augusto Farias também teria mantido encontros em um escritório de Sozza. "Eu sei de tudo isso porque trabalhei como segurança e motorista do Willian", afirmou o assaltante. Outros acusados por roubos a caminhões de cargas também depuseram à CPI e reforçaram as suspeitas sobre as ligações de Farias com Sozza, Hildebrando e Gerardo. "Temos motivos para investigar nessa direção porque até aqui tudo o que eles disseram foi confirmado pela CPI", disse Mattos, ao ser questionado sobre provas que a comissão têm.
Um dos problemas que a organização enfrentava na época chamava-se Stênio Mendonça, delegado de polícia do Maranhão. Mendonça estava fechando o cerco aos deputados José Gerardo e Francisco Caíca (PSD), tidos como dois dos principais dirigentes do bando no Norte do País. O delegado foi assassinado em maio de 1997, em São Luís (MA). A CPI trabalha com a hipótese de que a morte de Mendonça foi tramada em Campinas. "O assassinato do delegado foi decidido em uma reunião do Willian com os deputados", denunciou Meres. "O grupo decidiu que era necessário frear o Stênio Mendonça". Ainda, segundo o denunciante, Sozza teria dito para Gerardo resolver tudo "pois o problema era no estado dele." Gerardo concordou, informando que "tinha um pessoal para fazer o serviço". Segundo Meres, o deputado maranhense virou-se para Augusto Farias "com ar de deboche e disse que tinha apoio governamental." À CPI, Farias negou envolvimento com o narcotráfico mas recusou-se a ser acareado com Meres.
As ligações de Sozza - que está foragido - com o empresário Beto Zini também serão foco dos interrogatórios. Fundador do PRTB na cidade, Sozza mantinha escritório político no mesmo endereço comercial de Zini. Ambos estão com os sigilos bancário e fiscal quebrados. "Não tenho nada com o crime organizado", defende-se Zini.


