Campinas, SP, 12 (AE) - A CPI do Narcotráfico deverá fazer prisões em Campinas na próxima semana. Na mira dos parlamentares que investigam as ramificações do crime organizado em 14 estados há nomes de empresários, policiais, comerciantes e políticos estabelecidos em Campinas, que seria o centro logístico e financeiro de uma poderosa quadrilha de assaltantes de cargas, contrabandistas de entorpecentes, doleiros e assassinos.
A Comissão vai se instalar oficialmente na cidade a partir de terça-feira (16). Hoje, os deputados Pompeo de Mattos (PDT/RS) e Robson Tuma (PFL/SP) reuniram-se com juízes, promotores e procuradores da República que atuam em inúmeros processos sobre lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de cocaína na cidade. Mattos e Tuma disseram-se "chocados" com a sucessão de desmandos, fraudes, cumplicidade e omissão envolvendo setores da polícia. "A CPI deverá decretar a prisão de determinadas pessoas envolvidas nessa bandalheira", anunciou Mattos, subrelator da CPI para Campinas.
Segundo ele, a comissão também vai quebrar o sigilo bancário
fiscal e telefônico de "pelo menos" outras 20 pessoas citadas nas apurações -na noite de quarta-feira foi quebrado o sigilo de 34 denunciados, entre os quais o ex-presidente do Guarani, Beto Zini. "Existem fortes indícios da participação dele no esquema Willian Sozza", afirmou o deputado.
Sozza está foragido desde 14 de outubro. Até hoje ele era apontado como o número 1 na hierarquia do crime organizado, o cérebro da organização. "Tem gente acima dele", arriscou Tuma, depois de uma conversa de quase três horas com um grupo de cinco promotores de Justiça criminal.
Fundador e ex-presidente regional do PRTB na cidade, Sozza teria a função de distribuir ordens e captar recursos obtidos com a venda de produtos roubados. Ele já depôs à CPI em Brasília. Negou vínculos com a delinquência e, depois, sumiu. A CPI está examinando a contabilidade de duas empresas -Dog Center
voltada para a venda de produtos para cães, e Paradise, casa noturna.
Outras empresas, citadas por testemunhas à Comissão de Inquérito, também poderão ser investigadas. O deputado Pompeo de Mattos carrega em sua pasta uma relação com os nomes de nove destas empresas. Na tarde de quinta-feira, Mattos divulgou os nomes, inclusive da Morifarma. "Há referências a elas", anunciou o parlamentar. Hoje, o empresário Silvio Moribe, diretor da Morifarma, disse que coloca a rede de drogarias à disposição da CPI. "Não sei por que surgiu o nome da Morifarma nessa história", disse, indignado. Segundo o empresário, a Morifarma está no mercado há 48 anos e emprega, atualmente, 100 funcionários.
Um dado que impressionou os deputados é o número de fugas das prisões e delegacias de Campinas: em apenas um ano, mil detentos escaparam sem dificuldades. "Isso demonstra que o poder econômico conseguiu corromper o poder público nos presídios", disse Tuma. "Não há segredo algum, presos pagam para policiais e vão para a rua."
Uma fuga suspeita aconteceu longe de Campinas mas, para os dois deputados, está relacionada ao narcotráfico na cidade. Bruno Henrique Góes, condenado há 35 anos de prisão, estava recolhido a uma cela da Penitenciária de Guarulhos. Na madrugada do último domingo, Góes escapou do presídio após serrar as grades de três celas e cortar uma cobertura de arame farpado do pátio. O traficante estava convocado para depor na CPI na próxima terça-feira.
"Estamos diante de um caso evidente: quem tem poder não fica na cadeia", afirmou Pompeo de Mattos. "O tal Góes jogou pesado: ou vocês me soltam ou eu abro o jogo na CPI."
Góes era o chefão de um grupo que foi capturado em janeiro com 340 quilos de cocaína em uma chácara próxima a Campinas. Seis dias depois da prisão dos traficantes, o carregamento de pó foi roubado misteriosamente da sede do Instituto Médico Legal (IML). Como represália, os delegados em postos de comando foram deslocados para outras áreas. Hoje à tarde, os homens da CPI fizeram uma inspeção-surpresa no IML. Não havia um único policial tomando conta do lugar.
Na "sala da capela" estavam estocados 150 quilos de cocaína, maconha e psicotrópicos. No prédio, encontravam-se um médico perito, a secretária dele e dois recepcionistas desarmados. O diretor do Instituto havia saído no começo da tarde para descansar em uma chácara da região. "Isso aí é o produto do roubo e da sacanagem feita pela corrupção", disse Robson Tuma. "Lá em cima, é a casa da mãe Joana", comparou Pompeo de Mattos, apontando para o prédio do IML. "Queremos punições criminais."
Para Tuma, "o esquema do tráfico em Campinas é gravíssimo". O deputado disse que as informações colhidas pela CPI revelam que Campinas abriga grupos responsáveis pela lavagem de dinheiro, pelo comércio de drogas e ataques organizados a carretas. Ele pediu ao Banco Central e à Receita Federal que destaquem inspetores e auditores para fazer o cruzamento de contas bancárias e declarações de rendas que tiveram o sigilo quebrado. "Grande parte desse dinheiro é procedente do narcotráfico e do roubo de cargas que se interligam", avalia Tuma.
Sobre o grau de envolvimento de policiais, Pompeo de Mattos calcula: "Numa escala de 0 a 10, chega a oito."
A CPI desembarca em Campinas na manhã de terça-feira. Onze deputados vão comandar sessões públicas e reservadas no salão do Tribunal do Júri do Fórum Criminal. Os parlamentares pretendem tomar alguns depoimentos sigilosos com o objetivo de preservar a vida de testemunhas que se disponham a contar o que sabem. Também haverá acareações entre suspeitos e acusadores. O vereador Roberto Mingone (PFL), citado pelas investigações da Comissão, será ouvido.

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