Rio, 24 (AE) - O Espírito Santo transformou-se numa das principais rotas usadas pelo cartel de drogas controlado pelo ex-ditador surinamês Desi Boutherse e o empresário Leonardo Dias Mendonça, preso em novembro, em Goiânia. Segundo a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados, dos principais portos capixabas, a quadrilha exportava cocaína para Europa, Estados Unidos e Japão.
Na semana passada, a comissão voltou ao Estado, pela terceira vez, e colheu depoimentos sigilosos de traficantes que atuaram no Norte do País para quadrilhas internacionais. Entre março de 1997 e maio de 1999, a Polícia Federal (PF) do Pará apreendeu 2,4 toneladas de cocaína e 24 aviões do cartel de Boutherse, além de recuperar US$ 2,1 milhões e R$ 1,4 milhão.
Do grupo do ex-ditador, segundo a CPI, fariam parte os presidentes do Suriname, Jules Wijdenbosch, do Banco Central daquele país, Henk Goedschelk, e o embaixador surinamês no Brasil, Rupert Lawrence Christopher.
Um dos elos do cartel no Espírito Santo seria o empresário Alberto Ceolin, detido no dia 15, pela PF, em Marabá (PA). "Coincidentemente ou não, Marabá era a cidade onde funcionava toda a base de atuação de Mendonça, braço direito de Desi Boutherse", lembra o deputado Moroni Torgan (PSDB-CE), relator da CPI.
Ceolin estava foragido da Justiça desde dezembro. Ele, o empresários Antônio Roldi e o ex-vice-prefeito de Serra (ES) Adalton Martinelli são acusados de ser os mandantes do assassinato do ex-prefeito da cidade José Maria Feu Rosa, em julho de 1990.
Rosa teria sido assassinato por não aceitar mais se submeter ao esquema de corrupção montado pelos grupo de Ceolin. O esquema atuava em todas as prefeituras da Grande Vitória.
"O que podemos constatar é que onde há crime organizado
há tráfico de drogas, e existe até uma conexão geográfica entre os dois", afirma Torgan. O Ministério Público (MP) sabe que Ceolin comprou uma fazenda de 2.100 hectares, que pertencia a alguém que seria ligado ao tráfico de drogas na Colômbia.
A mesma pessoa teria vendido outras duas propriedades para "laranjas" do prefeito de Cariacica (Grande Vitória), Dejair Cabo Camata, morto em março. Camata respondia a mais de 40 processos somente na Justiça Federal, entre os quais, corrupção, formação de quadrilha e homicídio.
Em fevereiro, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) mandou que ele devolvesse R$ 8 milhões aos cofres da prefeitura - recursos desviados de repasses federais e estaduais.
Mas Ceolin não seria o único contato do cartel surinamês com o Espírito Santo. Em dezembro de 1998, a PF prendeu em flagrante o traficante Givaldo Rômulo da Silva, mais conhecido como "Bardô", que tentava embarcar com 37 quilos de cocaína no navio Neptunia Mediterrâneo, de bandeira espanhola. "Bardô" trabalhava para Leonardo Dias Mendonça.
O holandês Ronald Van Coolwijk, outro traficante preso em Vitória pela PF, também havia atuado com tráfico no Suriname, onde morou por dois anos. Coolwijk era sócio do empresário capixaba Antônio Carlos Martins, mais conhecido como "Toninho Mamão". Os dois foram detidos com 625 quilos de cocaína, em 9 de março de 1995, no Porto de Capuaba (ES). A droga estava camuflada em sacos de pimenta-do-reino e cravos-da-índia e seria exportada para a Bélgica.
Antes de ser condenado por tráfico internacional, "Toninho Mamão" era influente no Estado. Em 1990, ele foi candidato a vice-governador na chapa do então candidato Paulo Loureiro (PRN), hoje, deputado estadual do PFL e presidente da CPI do Narcotráfico da Assembléia Legislativa capixaba.
"Nunca tive nenhum relacionamento com esse sr.; sua indicação para a minha chapa foi meramente partidária", alega Loureiro, que aparece como um dos nove deputados estaduais beneficiados com cheques nominais pagos pelo presidente da Assembléia, José Carlos Gratz (PFL), também acusado pela CPI do Narcotráfico de ser um dos supostos líderes do crime organizado capixaba.
Ex-bicheiro, réu em inquéritos de sonegação fiscal, contrabando, crime eleitoral, formação de quadrilha e homicídio, Gratz confirma que deu dois cheques - um de R$ 40 mil e outro de R$ 50 mil - para Loureiro, mas alega que eram para pagar uma loja comprada do empresário num shopping na zona sul de Vitória. Loureiro disse, na semana passada, que havia recebido apenas R$ 50 mil, mas, depois da declaração de Gratz, mudou a versão, confirmando os dois cheques.
"R$ 90 mil não é nada para mim, que ando com um carro que vale R$ 150 mil", disse o deputado. Antes do episódio vir à tona, porém, Loureiro passou os três dias que a CPI ficou no Espírito Santo fazendo lobby para Gratz. O deputado foi visto várias vezes durante as sessões da comissão, no auditório do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), conversando reservadamente com integrantes da CPI. "Ele queria convencer-nos o tempo todo que Gratz não tem nenhum envolvimento com o crime organizado", afirma um dos deputados da comissão. Segundo a CPI, o relatório de Loureiro conclui pela inocência do presidente da Assembléia Legislativa.

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