Washington, 25 (AE) - Espiões chineses penetraram os principais laboratórios nucleares dos Estados Unidos nas últimas três décadas e obtiveram informações classificadas sobre todas as armas atômicas do arsenal americano, bem como sobre sistemas de direcionamento dos mísseis balísticos necessários para usá-las. O roubo desses segredos militares por Pequim só foi detectado na atual administração e "é excepcionalmente provável que continue até hoje", disse hoje (25) o deputado Christopher Cox, republicano da Califórnia, ao divulgar um relatório de 700 páginas com as conclusões de uma comissão parlamentar de inquérito que presidiu sobre o assunto a partir do ano passado.
A publicação do documento, apenas duas semanas após o bombardeio acidental da embaixada da China em Belgrado e a irada reação de Pequim, deverá ter profundas repercussões negativas nas relações sino-americanos, que já estavam abaladas pelo insucesso da negociação de acesso da China à Organização Mundial do Comércio durante a visita do primeiro-ministro chinês, Zhu Rongji, a Washington, no mês passado.
De imediato, ela pode impossibilitar a aprovação pelo Congresso americano, no mês que vem, da renovação do status da China como um país que tem "relações normais de comércio" com os EUA e podendo, portanto, beneficiar-se automaticamente das menores tarifas em suas exportações para o mercado americano.
Além disso, a acusação contra China reforça as posições tanto do lobby anti-China no Congresso dos EUA como das forças antiocidentais no governo chinês e reduz ainda mais as chances de um acordo sobre a entrada da China na OMC antes da próxima reunião plenária da organização, programada para Seattle, em novembro.
O relatório Cox, que era esperado há semanas e conhecido em suas grandes linhas, descreve as implicações potenciais para os interesses americanos da operação de espionagem chinesa em termos tão ameaçadores que alguns congressitas chegaram a compará-la ao roubo do segredo da bomba atômica dos EUA pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. O deputado Norm Dicks, democrata do estado de Washington e vice-presidente da CPI, disse que o trabalho "documenta um dos piores fracassos de contra-espionagem da história do país".
De acordo com o documento, a obtenção "dos segredos dos nossos laboratórios nacionais de armas (Los Alamos e Sandia, no Novo México, e Lawrence Livermore, na Califórinia) capacitou a China a projetar, desenvolver e testar armas estratégicas modernas mais cedo do que seria possível de outra forma".
De posse desses segredos e de informações sensíveis sobre tecnologias de mísseis que lhes foram fornecidas por duas empresas americanas fabricantes de satélites, a Loral Corp. e a Hughes Electronics, "a China saltou, em um punhado de anos, de uma capacidade nuclear dos anos 50 para projetos mais modernos de armas termonucleares", informa o relatório. O "apetite insaciável" de Pequim pelos segredos atômicos americanos colocou o programa de desenvolvimento de armas atômicas sofisticadas da China "em pé de igualdade" com o dos EUA , acrescenta o documento.
Embora a operação de penetração dos laboratórios tenha começado durante a administração do republicano Gerald Ford (1974-1976), foi nos anos 80, quando um outro presidente republicano, Ronald Reagan, estava empenhado na derrocada da União Soviética, que os chineses obtiveram informações classificadas sobre o projeto de sete ogivas nucleares dos arsenal americano, incluindo as duas mais modernas - sustenta o relatório. O trabalho faz referência também à possível obtenção pela China da tecnologia da bomba de neutrons, em 1995, mas os detalhes que sustentariam essa alegação continuam classificados como informação secreta.
O documento acrescenta que, graças às ações de seus espiões, a China conseguiu, mais recentemente, "tecnologia de armas eletromagnéticas", que poderia ser usada para atacar satélites e mísseis, técnicas de detecção que podem ser úteis contra submarinos e "pesquisa de tecnologia que, se levada com êxito à sua conclusão, poderia ser usadas para atacar satélites e submarinos americanos".
Ao contrário do que acontece com as CPIs brasileiras, o trabalho de investigação e de redação do relatório da CPI americana foi conduzido sob o mais absoluto sigilo. Embora as acusações centrais fossem conhecidas há meses, o conteúdo do documento só começou a chegar à imprensa esta semana, num esforço deliberado de Cox e de outros membros da comissão - cinco republicanos e quatro democratas - para criar expectativa para a divulgação.
Seu conteúdo era conhecido pela Casa Branca desde janeiro, quando a CPI encaminhou a Clinton uma cópia da primeira versão - classificada - do documento. O relatório divulgado hoje é o resultado de uma longa e difícil negociação entre Cox e o executivo para permitir a divulgação dos resultados das investigações sem comprometer segredos de segurança nacional. Cerca de um terço do documento original não foi divulgado.
A administração Clinton respondeu com uma declaração escrita de três páginas do secretário de imprensa da Casa Branca, Joe Lockhart, na qual chamou o relatório de "bom e sólido" mas discordou das conclusões da CPI sobre o impacto da perda de tecnologia nuclear alegada. Segundo Lockhart, a administração não compartilha de todas as análises do documento mas "achou a maioria de suas recomendações construtiva e está no processo de colocá-las em prática".
"A China está muito atrás de nós", disse o secretário de Energia, Bill Richardson. "Não há nenhum indício de que isso esteja mudando e a conclusão de que houve grande perdas (de informação e tecnologia nucleares) não é sustentada pelo fatos alegados". O executivo disse que têm dúvidas sobre a utilidade para os chineses das tecnologias que obtiveram . E embora tenha votado em favor do relatório da CPI, que foi aprovado por unanimidade, os deputados democratas que participaram da investigação disseram que o relatório usa com frequência "o pior cenário possível" e ignora que a China tem apenas 24 armas nucleares, contra milhares dos EUA.
Outro fato que pode colocar em dúvida a gravidade da situação denunciada pelo documento é o fato de o governo não ter feito acusação formal, até agora, contra o cientista americano de origem taiwanesa Wen Ho Lee, que foi despedido do laboratório de Los Alamos em março depois de passar três anos sob suspeita de ter espionado para a China. Wen, que transferiu informações sensíveis dos computadores de Los Alamos para seu computador pessoal, negou que seja ou tenha sido espião chinês.
Em Pequim, que sempre negou ter conduzido qualquer operação de espionagem contra os EUA, o porta-voz do ministério da Relações Exteriores, Zhu Bangzao, afirmou que as alegações foram fabricadas por pessoas que querem caluniar a China e denunciou "sua desprezível tentativa fadada ao fracasso".
Senadores republicanos pediram hoje a renúncia do conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Samuel "Sandy" Berger, e da secretária da Justiça, Janet Reno. O governador do Texas, George W. Bush, que é o favorito entre os republicanos para disputar a Casa Branca no ano que vem com o vice-presidente Albert Gore, o mais provável candidato democrata, criticou duramente a administração.
"Acho que o equilíbrio do poder mudará em consequência disso", afirmou ele, falando sobre o alegado roubo dos segredos nucleares pela China. "Isso vai acelerar a ascensão da China como uma potência nuclear e o próprio presidente e seus sucessores terão que lidar com essa situação". Para Bush, o fato de o problema ser antigo e ter começado quando seu pai, o ex-presidente George H. Bush, era vice de Reagan, não absolve Clinton da responsabilidade por não ter agido antes. Ele pediu uma nova CPI para investigar "o que deu errado e por quê".

mockup