CPI ainda busca chefes do tráfico no Paraná
CPI ainda busca chefes do tráfico no Paraná4/Mar, 20:00 Por Wilson Tosta, enviado especial Curitiba, 4 (AE) - Os integrantes da CPI do Narcotráfico deixaram o Paraná convictos de que, apesar da decretação da prisão do ex-delegado-geral da Polícia Civil João Ricardo Keppes de Noronha e de outras 11 pessoas, a comissão ainda não atingiu o topo da hierarquia local do crime organizado. Para que isso ocorra, os parlamentares esperam que, após o carnaval, a Justiça se pronuncie sobre mais cinco pedidos de prisão feitos pelo Ministério Público. Os nomes dos acusados são mantidos em sigilo mas entre eles há outros integrantes da elite da polícia suspeitos de chefiar o tráfico. "No Paraná, a polícia comanda o crime", disse a deputada Laura Carneiro (PFL-RJ), durante uma das sessões que a CPI realizou em Curitiba durante toda a semana. A afirmação ganhou força depois que testemunhas acusaram Noronha e outros policiais de envolvimento em tráfico, extorsão e torturas, mas é amenizada pelo delegado-coordenador da Força Especial de Repressão Antitóxicos (Fera), delegado Adauto Abreu de Oliveira. Ele concorda que policiais do Paraná mandam na venda de entorpecentes e em suas ramificações em outros crimes, como o desmanche de carros roubados, mas diz que eles cumprem ordens de gente de fora da hierarquia policial: os atacadistas da droga. Veterano em investigações sobre sequestros e tráfico e apontado como integrante da "banda boa" da Polícia Civil local Oliveira revela que o resultado da CPI o surpreendeu. "Não imaginava que chegaríamos ao Noronha", conta. "Só tínhamos certeza de que haveria pressão sobre os policiais acusados e a esperança de que eles entregassem as pessoas acima deles." Com a explosão de denúncias no plenarinho da Assembléia, onde a CPI realizou suas sessões, muitos policiais sob suspeita não se apresentaram e Noronha fugiu. O homem que há uma semana comandava a Polícia Civil do Paraná foi demitido do cargo e está hoje foragido da Justiça, possivelmente no Paraguai. Crise - A queda de Noronha deixou um rastro de crise política no Estado. O secretário da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, conseguiu resistir e manter-se no posto, apesar do constrangimento de ter tido como chefe da Polícia Civil um homem acusado de ser um dos cabeças do tráfico. "O dr. Noronha era tido como um policial operacional, dedicado", diz o secretário, que destaca as qualidades que via no ex-subordinado: lucidez, inteligência e competência. "Nunca recebi uma denúncia sobre envolvimento de policiais com o tráfico." Ele depôs na CPI após conversas entre o governador Jaime Lerner (PFL) e integrantes da comissão, o que resultou num interrogatório pouco incisivo, em que o depoente se sentou ao lado dos parlamentares e suas relações com o ex-delegado-geral não foram esmiuçadas em nenhum momento."Eu perguntaria ao sr. secretário de Segurança qual é a avaliação que faz de si mesmo, quando, em apenas três dias, com meia-dúzia de testemunhas se chega a esse quadro", disse, ao fim da última sessão da CPI, o promotor Paulo Kessler, da Promotoria de Investigação Criminal. Kessler protestou contra a falta de vontade dos parlamentares de interrogar o secretário, que depôs acompanhado por muitos colegas de secretariado. O deputado Roque Zimmerman (PT-PR) disse que houve um acordo para não "apertar" Cândido, mas isso foi negado por outros integrantes da CPI, como o presidente, Magno Malta (PTB-ES), e Lino Rossi (PMDB-MT). Em busca do espaço político perdido, o secretário anunciou que os delegados Paulo Ernesto Araújo Cunha, Alex Danewicz e Luiz Alberto Cartaxo de Moura vão aprofundar as investigações sobre o envolvimento de policiais com o crime organizado no Paraná. Ele também prometeu pôr 15 agentes à disposição do Ministério Público Estadual para prosseguir as investigações sobre o tráfico e seus braços no Estado. A CPI também decidiu constituir uma subcomissão paranaense. Agora, espera-se que a Comissão Especial de Inquérito da Assembléia que investiga o narcotráfico seja transformada em CPI, o que lhe daria mais poderes para aprofundar as investigações. Depoimentos - Um informante policial, mascarado, revelou que participou de extorsões contra dependentes de drogas, ao lado de outros policiais. O policial Edemir Silveira contou que assassinou um traficante numa operação irregular. O ex-policial Gilberto Barros, o Marrom, contou ter vendido drogas para o policial Samir Skandar por muitos anos. Segundo ele, Skandar, quando trabalhava na Delegacia de Furtos de Veículos, comandava o esquema de desmanche de carros roubados. Uma testemunha mascarada acusou o policial Reginaldo Moreira de ter assassinado um traficante conhecido como Grego na BR 376. O major-PM Valdir Neves, em sessão reservada, entregou documentos com supostos indícios de envolvimento de Noronha e do delegado Mário Ramos em sete homicídios ocorridos em Rio Branco do Sul, na região metropolitana de Curitiba. As ações estariam ligadas ao crime organizado, segundo Neves, que é do serviço reservado da corporação. Como resultado das denúncias, foram presos Silveira, Moreira e Skandar, que são investigadores, e Hassin Hussein Dehaine, empresário. Tiveram a prisão decretada pela Justiça, além de Noronha, os investigadores Mauro Canuto Machado e Marco Antonio Germano. Foram afastados de seus cargos, numa primeira leva, outros 18 policiais acusados, dos quais cinco são delegados. Tudo isso se deu em meio a enorme tensão. Uma porta de vidro da Assembléia foi destruída, supostamente por um tiro, o que causou correria e pânico. Ameaças de bomba levaram à evacuação do prédio, na tarde de quinta-feira. "O Paraná me surpreendeu", disse o deputado Robson Tuma (PFL-SP). Para ele, as pressões e ameaças mostraram que a CPI está no caminho certo. "Isto aqui está pior do que o Acre", afirmou Laura Carneiro, referindo-se às investigações sobre o bando que seria chefiado pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal. O coordenador da Fera diz que a CPI acabou com a idéia de que o Estado, por sua proximidade com o Paraguai, é apenas rota de passagem das drogas. "A comissão mostrou a cara do País: o segundo maior consumidor de droga do mundo." Outro benefício que a CPI levou ao Paraná, para o delegado, foi a decretação da prisão do ex-delegado-geral. "Politicamente, foi o mais importante", disse ele, informando que recebeu oito denúncias contra Noronha. "Perderam o medo."





