Agência Estado
De Brasília
A base do governo se mobilizou ontem para derrubar o pedido do deputado Fernando Zuppo (PDT-SP) de quebra de sigilo bancário e telefônico de 21 laboratórios, na CPI dos Medicamentos. Representantes deste laboratórios teriam se reunido no ano passado para acertar uma estratégia de boicote aos genéricos. A votação foi adiada por causa da ordem do dia na Câmara. O governo defende a proposta do relator Ney Lopes (PFL-RN), de quebra de sigilo bancário apenas para complementar as informações decorrentes da quebra do sigilo fiscal, já aprovada.
Ontem a CPI foi surpreendida com o anúncio, pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), do afastamento de seu presidente, Aparecido Camargo. (ver matéria ao lado)
A idéia de Lopes agrada ao governo, já que o deputado alega que não há fundamentação para a quebra indiscriminada de sigilo bancário dos laboratórios, pois não há indícios de movimentação de quantia de origem ilícita. ‘‘Parece que a ação do governo é para intimidar a CPI’’, protestou o deputado Geraldo Magela (PT-DF), um dos defensores da proposta de Zuppo. ‘‘O governo só quer a quebra do sigilo bancário se o fiscal indicar necessidade’’, afirmou o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), um dos articuladores da base aliada.
Para a deputada Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), se não houver a quebra do sigilo bancário a imagem da CPI estará prejudicada. O presidente da comissão, deputado Nélson Marchezan (PSDB-RS) admitiu prejuízos. Para o relator, Ney Lopes, a quebra do sigilo bancário indiscriminada pode afetar as bolsas. ‘‘Não estamos aqui para fazer pirotecnia’’, disse ele, em um ataque velado à oposição.
Ontem o ex-ministro da Saúde e atual deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Jamil Haddad (PSB), confirmou a existência de remédios sem eficácia nas farmácias. ‘‘Existem B.Os e é preciso retirar do mercado drogas inócuas’’, afirmou o ex-ministro, que em 1993 enfrentou, sem sucesso, a primeira grande batalha para criar no País uma política de medicamentos genéricos.
Para Jamil Haddad, o problema de dificuldade de acesso a remédios e eventuais abusos de preços não são solucionados por falta de empenho do governo. ‘‘Com a vontade do governo e a conscientização da população é possível enfrentar os laboratórios’’, acredita.
Entre os B.Os citados por Haddad aos deputados da comissão, estão os hepatoprotetores, remédios indicados para o fígado. ‘‘Já foi provado por pesquisas mundiais que nenhum medicamento protege o fígado quando ele está deteriorado’’, afirmou. Haddad determinou o recolhimento destes produtos do mercado em 1993. ‘‘Mas a Justiça mandava recolocar’’.
Naquela época, Haddad ficou conhecido pela tentativa de retirar das farmácias vários produtos. O que mais chamava a atenção de uma lista de mais de 300 itens era o spray Virgen Again, que prometia restaurar a virgindade. Ele acabou saindo definitivamente do mercado, mas Haddad perdeu a batalha para acabar, por exemplo, com as associações de medicamentos.

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