Brasília, 19 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos adiou nesta segunda-feira (19), por uma semana, os depoimentos do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes e do ex-diretor de Fiscalização da instituição Cláudio Mauch.
Os integrantes da CPI querem passar os próximos dias analisando a documentação apreendida na sexta-feira passada na casa de Francisco Lopes, no Rio de Janeiro, que foi considerada "um pouco mais forte do que nitroglicerina pura", segundo o senador Eduardo Siqueira Campos (PFL-TO). O relator da comissão, senador João Alberto (PMDB-MA), qualificou os documentos como "coisas horríveis, terríveis e comprometedoras, que precisam de perícia".
De acordo com João Alberto, os procuradores do Ministério Público no Rio de Janeiro teriam encontrado na residência de Francisco Lopes uma carta assinada por Luiz Augusto Bragança, em que ele reconhece uma dívida de US$ 1,675 milhão para com a companheira de Lopes, Araci Benttes dos Santos Pugliese, em caso de sua morte. Araci Pugliese é sócia de Bragança na empresa Macrométrica, que teria usado o nome de Francisco Lopes para arranjar clientes em troca de supostas informações privilegiadas.
O dinheiro teria sido depositado no exterior, segundo o relator João Alberto. "Se a autoria da carta e dos demais documentos for comprovada por análise grafotécnica seria difícil para Francisco Lopes se salvar numa CPI", disse João Alberto. Os integrantes da CPI tomaram conhecimento da existência dos documentos por relato feito pelos procuradores Luiz Francisco Fernandes e Arthur Gueiros, durante uma reunião secreta da comissão.
Acordo - Depois que tomaram conhecimento da existência da carta e de outros documentos que não foram revelados, os senadores decidiram adiar o depoimento do ex-diretor de Fiscalização do BC Cláudio Mauch.
"Precisamos analisar com mais calma essa documentação", disse Siqueira Campos. À tarde, antes da revelação feita pelos procuradores, um acordo entre os integrantes da CPI dos Bancos permitiu adiar o depoimento de Francisco Lopes para explicar a ajuda do BC aos bancos Marka e FonteCindam.
Lopes esteve pessoalmente no Senado para entregar uma carta ao presidente da CPI, senador Bello Parga (PFL-MA), pedindo o adiamento por 20 dias. A nova data do depoimento será a próxima segunda-feira. O pedido foi posteriormente submetido e aprovado pelo plenário da comissão, com o apoio até mesmo de senadores da oposição. A única voz discordante, contrária ao adiamento, foi do senador Pedro Simon (PMDB-RS), que considerou "um desrespeito" à CPI o pedido feito por Lopes.
A presença de Francisco Lopes no Senado foi comunicada ao presidente da Casa, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), pelo senador Bello Parga, que foi até o plenário, enquanto estava sendo realizada a sessão, avisar-lhe do recebimento da carta. No documento, porém, Lopes declarou que as "agressões que vem sofrendo" reclamam sua presença no Rio de Janeiro para tomar providências que as limitem, o que o impedia de atender à convocação.
Bello Parga ressaltou que o pedido de adiamento da audiência seria submetido ao voto dos integrantes da CPI. A carta de Francisco Lopes, embora tenha sido entregue hoje à tarde, está datada do dia 17 de abril, sábado. No Senado, Francisco Lopes circulou discretamente nos corredores, acompanhado de integrantes do PSDB, que trataram de preservá-lo.
Há um entendimento entre os senadores de que Francisco Lopes passou a ser a parte frágil do escândalo financeiro que envolve a ajuda do BC às duas instituições. A invasão à casa do ex-presidente do BC, no Rio de Janeiro, sexta-feira passada, acabou sendo o principal argumento em defesa do adiamento de sua exposição à CPI. A atuação do Ministério Público no Rio, acompanhado da Polícia Federal, foi considerada excessiva por muitos senadores.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) chegou a defender a convocação de representantes do Ministério Público no Rio para explicar o motivo que o levou a pedir o mandado judicial de busca e apreensão na residência de Francisco Lopes, enquanto este estava depondo na Polícia Federal em Brasília. "É preciso que os procuradores expliquem suas razões a esta CPI", disse Suplicy. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) considerou "um exagero" a ação, embora tenha ressaltado que o ato teve uma autorização judicial.
Na reunião de hoje de manhã dos integrantes da CPI, a portas fechadas, os senadores deram o primeiro sinal de que poderiam relaxar um pouco a pressão sobre Francisco Lopes. O presidente do PMDB, senador Jáder Barbalho (PA), autor da CPI dos Bancos, sugeriu o adiamento da audiência de Francisco Lopes, se não chegassem às mãos dos senadores a cópia do depoimento do ex-presidente do BC à Polícia Federal e os documentos que faltavam sobre a operação de socorro financeiro aos bancos Marka e FonteCindam.
"Há um desejo majoritário da CPI de estudar melhor o depoimento de Chico Lopes", admitiu o senador Arruda. Ainda pela manhã, o senador Antônio Carlos Magalhães deu uma declaração que destoava do movimento governista para defender Francisco Lopes. "A minha defesa, hoje, não será tão enérgica quanto seria ontem", afirmou ACM, depois de cobrar uma atitude mais incisiva do ex-presidente do BC sobre o bilhete redigido de próprio punho pelo banqueiro Salvatore Cacciola, dono do Banco Marka. No bilhete, Cacciola pede a ajuda de Lopes para convencer o então diretor de fiscalização, Cláudio Mauch, à venda de dólares ao Marka por preços inferiores aos de mercado, e prometia "esquecer tudo".

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