Covas usa liderança na convenção para fortalecer FHC
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de maio de 1999
Por Maria Inês Nassif e Cláudia Carneiro 
Brasília, 15 (AE)- O governador de São Paulo, Mário Covas, reassumiu hoje o lugar de líder número um do PSDB nacional, posição que não foi discutida nem contestada por nenhum outro líder, contra a tradição tucana. "O partido encerrou a convenção absolutamente unido", afirmou o deputado e ex-ministro Antonio Kandir (SP). Os discursos de Covas e do presidente Fernando Henrique Cardoso foram as grandes atrações da convenção que escolheu ontem a nova direção nacional do partido, mas as palavras do governador paulista foram as que emocionaram e tomaram o salão do Hotel Nacional, repleto de convencionais - ministros, governadores, parlamentares, jovens, mulheres e dirigentes estaduais.
Foi Covas, o líder informal - ele apenas integrará o Conselho Político do PSDB - que chamou o partido a um apoio mais efetivo ao presidente. "De agora em diante, quem atacar o nosso líder maior vai receber de nós a resposta devida", avisou Covas aos outros aliados do presidente. E, pedindo para plagiar Augusto Boal e Edu Lobo, na peça "Arena contra Zumbi", afirmou: "Ao mal, vamos responder com a maldade." Assumiu ainda as dores do PSDB, na onda de denúncias envolvendo tucanos. "Existem tucanos gordos e magros, altos e baixos, só não temos tucanos sem honra e sem caráter." "Solidariedade não é um risco no Ibope, mas uma questão de caráter", continuou Covas, cuja frase motivou mais tarde uma resposta de Fernando Henrique. "Covas não se move por um ponto no gráfico, mas pelo caráter", reconheceu o presidente em seu discurso. O governador paulista, que há semanas vem articulando para desarmar as tentativas de lançá-lo o candidado à Presidência em 2002 - um movimento de reação ao PMDB e ao PFL, que já dão sinais de independência - acabou de enquadrar o partido em seu discurso. "Estaríamos errando na matemática e na política", sentenciou Covas, lembrando que a eleição ocorre apenas no próximo milênio e, até lá, deve governar um presidente tucano.
Constrangido - Foi Mário Covas quem introduziu no clima da convenção um inicialmente constrangido presidente da República, sentado à mesa com a direção partidária e cercado das grandes estrelas peessedebistas.
"Nós não desertaremos: estaremos juntos reforçando vossa excelência, sua inatacável seriedade, honestidade e ética com que tem pautado o seu governo", afirmou Covas.
Mesmo nos momentos de seu discurso em que lembrou os vínculos do partido com o governo, e atribuiu a liderança máxima do PSDB ao presidente, ficou claro que a ligação direta dos militantes era com o governador. Os slogans pró-Covas sucediam-se - e a claque, reunida pela juventude tucana e convencionais, substituiu o "Covas" por "Fernando" apenas nos momentos em que o governador chamou com mais veemência a responsabilidade do partido com o governo federal.
Fernando Henrique subiu na cadeira para tornar-se visível aos convencionais, incomodados com a grande quantidade de fotógrafos que impedia a visão da mesa. Mesmo acima de todos no auditório, o presidente demorou a esquentar o discurso - e apenas nos seus últimos minutos permitiu-se um desabafo: "Onde existe podridão, acabe-se com ela, mas não jogue lama em que tem mãos limpas", afirmou o presidente.
"Não nos venha agora com conversa fiada, porque aqui há homens de ética e mulheres honestas", continuou, numa resposta às suspeitas que permaneceram no ar, em relação a pessoas de seu governo e a ele próprio.
Mais adiante, o presidente mostrou aos convencionais os limites de seu envolvimento com os outros partidos aliados, ao deixar claro que dividia o poder porque precisava disso para governar. "Mantemos a maioria na Câmara e no Senado porque queremos que a democracia avance", afirmou. Mas traçou o perfil do apoio que deseja: "Nós queremos o voto no Congresso, mas queremos um voto de posições firmes, não o voto de conveniência, o voto do medo, da incerteza e dos interesses." "Há momentos em que um presidente sabe estar tomando uma posição de peso para a história, mas não sabe o que acontecerá", disse. "Se espiritualmente o presidente não tiver, nesse momento, o povo e um partido que o apóia, não tem forças para decidir", reclamou, também numa cobrança de uma atitude mais positiva do partido ao qual está filiado. "Eu quero um PSDB que brigue, que tome as nossas teses e faça avançar", afirmou.
Fernando Henrique, no seu discurso, combateu o que chamou novamente de "fracassomania" e tentou passar uma perspectiva positiva para a economia brasileira. Antes de sentar à mesa da convenção, comentou com algumas figuras do partido que a economia brasileira deve crescer 4% ao ano no ano 2000. "Essa não é uma projeção exagerada", garantiu. Ao falar para os convencionais, disse que faria o possível para evitar o aprofundamento da recessão.
Após o discurso, Fernando Henrique, que havia entrado pelos fundos do salão onde foi realizada a convenção, evitando os convencionais, saiu pela porta da frente, aplaudido. Somente depois que foi embora desmontou-se um aparato de segurança que consistia em um aparelho de raio X, revista de bolsas e seguranças por todos os lados. Nada que impedisse, no entanto, a juventude tucana, vinda de São Paulo em seis ônibus e de outros estados, invadir os espaços reservados pela segurança, tentar inutilmente abrir faixas com "Covas, o exemplo" que não cabiam no salão fechado e gritar, a todo momento, slogans a favor de Covas.


