Covas retoma idéia de aliar-se à centro-esquerda
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sábado, 19 de junho de 1999
Por Regina Terraz 
São Paulo, 20 (AE) - Recuperado do tratamento quimioterápico, o governador Mário Covas (PSDB) está retomando uma antiga promessa, feita logo após sua vitória nas urnas: a de alinhar seu governo à centro-esquerda. A intenção de Covas é aparelhar-se politicamente para imprimir a seu segundo mandato feições prioritariamente sociais, uma preocupação relegada a segundo plano no primeiro mandato. Tucanos ligados ao governador afirmam que a intenção é fazer da atual administração um contraponto à política do presidente Fernando Henrique Cardoso, já com vistas às eleições presidenciais de 2002. "O governador vai enfatizar as ações sociais e pretende mostrar que não precisa fazer o mesmo arco de alianças do presidente", diz um integrante do PSDB.
A mudança no perfil de sua base parlamentar, segundo pessoas próximas de Covas, serviria para mostrar que é possível ter governabilidade sem obrigatoriamente atrelá-la a uma aliança de conveniência com o PMDB ou à direita, com os liberais. Assumindo características mais claras de um administrador social-democrata, Covas estaria mostrando para o cidadão que seu governo tem características diferentes da administração federal, também tucana.
"O governador Covas é a única saída para o futuro do PSDB", sustenta outro tucano da cúpula do partido em São Paulo. Para o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, José Aníbal, não é necessário fazer o contraponto com Fernando Henrique, ele é natural. "O governador é muito atuante na gestão administrativa, coisa que o governo federal faz pouco", acredita o secretário.
Aproximação - Depois de ter ganho a eleição no ano passado, Covas deixou bem claro que gostaria que sua administração contemplasse as forças que o elegeram. Depois de algumas conversas com PT, PSB, PDT e PPS no início do ano, que foram atropeladas pela doença do governador, o tucano recomeçou, há cerca de duas semanas, a ouvir propostas das esquerdas e está em diálogo constante com o PPS, partido que deve ter uma vaga em seu secretariado.
Na opinião de alguns interlocutores do governo, atualmente há vários fatores que possibilitam a tendência mais para a centro-esquerda. "O governador Covas já saneou o Estado, já aprovou as privatizações e agora o eixo da administração está voltado para o desenvolvimento e para uma política de caráter social", especifica um representante tucano do governador na Assembléia.
A aproximação com os partidos de esquerda tem também um lado prático: a composição política na Assembléia, para garantir maioria de votos. O tamanho das bancadas alterou-se muito nessa nova legislatura e após o troca-troca dos deputados de partido. O PPS, que até o ano passado tinha apenas um representante, hoje está com seis. E, ao que tudo indica, pode chegar a ter dez deputados, segundo afirma o presidente regional do partido, deputado João Hermann Neto. Um número nada desprezível.
Na semana passada, o comentário na Assembléia era de que o deputado Dimas Ramalho, ex-PMDB e atual integrante do PPS, poderia ocupar a pasta de Recursos Hídricos. Dimas já foi secretário de Habitação no primeiro mandato de Covas. Seu ingresso no governo poderia resolver vários problemas políticos de uma só vez. Sua saída da Assembléia abriria vaga para Flávio Chaves. Ex-deputado do PMDB, Chaves é o primeiro suplente de Dimas e amigo pessoal de Covas. Ao tornar-se parlamentar, Chaves poderia desistir de disputar a prefeitura de Sorocaba, o que facilitaria a reeleição do atual prefeito, o tucano Renato Amary.
Ao mesmo tempo, existe uma especulação sobre a possibilidade de a deputada tucana Zulaiê Cobra Ribeiro assumir outra secretaria no governo. Quem ficaria em seu lugar na Câmara seria Mendes Thame, atual secretário de Recursos Hídricos. Dessa forma, o tucano estaria livre para disputar a prefeitura de Piracicaba.
A bancada estadual do PDT também cresceu bastante: tem hoje sete parlamentares, quando tinha dois na legislatura anterior. Por enquanto, o partido tem mantido uma posição de independência em relação a Covas, embora a legenda já tenha sido procurada algumas vezes pelos tucanos para fazer parte do bloco governista na Assembléia. O PDT, de acordo com o líder da bancada, Salvador Khuriyeh, pode até estudar fazer parte da base governista. "Mas, para isso, o governo terá de mostrar concretamente que mudou o rumo político de seu governo, como havia anunciado no início de seu segundo mandato", avisa Khuriyeh. Em contrapartida, partidos mais antigos, como o PMDB, estão em plena decadência. No início do mandato anterior, a bancada estadual tinha 23 parlamentares. Na eleição, caiu para oito deputados e, hoje, tem apenas cinco representantes na Assembléia.
Nas negociações com o Executivo estadual, o PPS tenta não ser apenas um partido que apóia Covas na Assembléia. Quer ter voz ativa na administração tucana e, também, cargos. "O PPS quer participar do governo fazendo sugestões de políticas públicas", explica o mais novo integrante da bancada do partido
Arnaldo Jardim, eleito pelo PMDB. O partido sonha em conseguir dar uma imagem mais "social" à administração tucana. No dia 25 de junho, quando serão oficializadas as novas adesões ao partido
será apresentado também um conjunto de propostas ao governador com alternativas para combater o desemprego e a recessão.
Promessas - Há cerca de 15 dias, Covas cumpriu parte de sua promessa nas urnas: recebeu representantes estaduais do PT e ouviu suas propostas. De acordo com Antônio Palocci, presidente regional do partido, as reivindicações foram bem recebidas pelo governador e muitas delas já tinham sido postas em execução, como o "banco do povo". A reunião teve bons resultados. "O PT quer mostrar que um partido de oposição pode dialogar com o governo desde que tenha abertura para isso", garante Palocci. Embora continue na oposição, o diálogo entre o PT e Covas em São Paulo nunca foi tão cordial.
Ao procurar compor com outras facções políticas, Covas pretende ainda outro feito: afastar-se das forças liberais, mais precisamente do PFL. Embora o partido apóie o governo na Assembléia, as relações da ala paulista com o governador tucano nunca foram boas. O PFL hoje está fora do primeiro escalão do governo, e a possibilidade de que volte é remota.
Por achar-se maltratado por Covas - que não cedeu aos pedidos de cargos do partido -, o PFL preferiu apoiar Maluf nas eleições passadas e caiu em desgraça com o governador. "Digamos que a relação dos tucanos com os pefelistas em São Paulo sempre foi morna e continua morna", afirma um parlamentar do PFL. Ambos os lados procuram manter um relacionamento ameno por conta da aliança nacional.
Covas está tentando mudar também o rumo das ações administrativas de seu governo. Enquanto no primeiro mandato elas estavam voltadas ao ajuste de contas, atualmente ele só pensa em planos que possam desenvolver o Estado, diminuir o desemprego e atrair investimentos. Ao mesmo tempo, está dando maior ênfase aos programas sociais. O governador acaba de criar as frentes de trabalho, iniciativa que abrirá 50 mil vagas na Grande São Paulo, como forma de amenizar o desemprego. "Podemos dizer que o segundo mandato de Covas terá como marca o desenvolvimento", afirma Aníbal.


