Covas pede desculpas e afasta coronéis
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de abril de 1997
Das agências, de São Paulo 
Roberto Setton/Agência Estado
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TV Globo/Reprodução
SurpresaO governador Mário Covas ontem, durante entrevista coletiva, assumiu a responsabilidade pelo episódio, do qual só tomou conhecimento anteontem, depois de ver as imagens (foto de baixo) exibidas pela Rede Globo, de policiais torturando e extorquindo moradores da Favela Naval, em Diadema
O governador Mário Covas afastou ontem de seus cargos o coronel Luís Antônio Rodrigues, chefe da Polícia Militar no ABC, e o corregedor da PM Paulo Miranda de Castro. O governador disse que é impossível garantir que a ação violenta dos policiais que torturaram, mataram e roubaram em Diadema (SP) não vá se repetir. Durante entrevista coletiva ontem, Covas pediu desculpas à população de São Paulo pela violência policial. É impossível dizer que esse episódio nunca vai se repetir. Não deve servir como desculpa, mas vemos coisas assim até em outros países. Essa coisa (divulgação das imagens da violência) atinge o governo como um todo e a mim, em particular. Não abro mão desse tipo de responsabilidade, afirmou.
O tenente-coronel Pedro Pereira Mateus, comandante do 24º Batalhão, de Diadema, na Grande São Paulo, onde trabalhavam os dez militares acusados do assassinato do escriturário Mário José Josino, de torturar e extorquir moradores da Favela Naval, em Diadema, será afastado hoje. Outros oficiais serão transferidos.
As remoções foram pedidas pelo secretário da Segurança, José Afonso da Silva, para facilitar a apuração dos crimes. Silva participou da entrevista concedida por Covas ontem sobre o caso, no Palácio dos Bandeirantes. Os oficiais sabiam de existência de um vídeo com as torturas praticadas por um sargento, um cabo e oito soldados, mas não avisaram o Comando-Geral da PM. O comandante, Claudionor Lisboa, Silva e Covas souberam dos fatos anteontem, através do Jornal Nacional, da Rede Globo.
Os dez PMs estão recolhidos em celas do 2º Batalhão de Choque, no bairro da Luz, na capital, onde vão permanecer até a conclusão, pela corregedoria, dos dois Inquéritos Policiais Militares (IPM) nos quais são acusados de homicídio, corrupção, assalto, extorsão, abuso de autoridade e desobediência. A corregedoria prometeu concluir os inquéritos em 15 dias.
O governador Mário Covas, que por comandar o Estado tem poder sobre a Polícia Militar, deveria ter sido avisado com antecedência do que vinha ocorrendo em Diadema, em vez de ficar sabendo pela tevê. Esta é a opinião de Élio Proni, comandante de Policiamento Metropolitano, da PM, que tem sob sua responsabilidade oito comandos e oito batalhões.
Às vezes, o policial está tão envolvido no dia-a-dia que não avalia a parte política, disse ontem Proni, depois de reunião na Corregedoria. Faltou um pouquinho de sensibilidade e cabeças podem rolar. Um primeiro inquérito para apurar o envolvimento dos policiais militares do 24º Batalhão de Diadema na morte do mecânico Mário José Josino, ocorrida na madrugada do dia 7, já estava em andamento. Segundo Proni, no batalhão era sabido que um cinegrafista amador - que será ouvido pelo promotor José Carlos Blat - havia feito cenas do crime.
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem, por intermédio do seu porta-voz, Sergio Amaral, que ficou chocado e indignado com as cenas de violência da Polícia Militar de São Paulo. Ele considerou inaceitável o fato de essas cenas continuarem ocorrendo.
Ontem, no final da manhã, o presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou uma audiência marcada semana passada com o ministro da Justiça, Nelson Jobim, para traçar uma estratégia de ação do governo para tentar minorar o impacto da revelação dessa nova violência policial.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Sepúlveda Pertence, defendeu ontem a disciplina e a educação das forças policiais (civis e militares) para evitar a prática da violência. Pertence repudiou soluções repressivas radicais, como a adoção da pena de morte, afirmando que nenhum país que adota essa pena executaria tanto quanto certos setores da polícia brasileira. O ministro disse encarar com vergonha a repetição de cenas de violência pela polícia. Como todo brasileiro, estou ainda assustado e, sobretudo, envergonhado com o que se assistiu.


