Covas ironiza discussão entre monetaristas e desenvolvimentistas
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domingo, 05 de setembro de 1999
Por Mariana Caetano 
São Paulo, 06 (AE) - O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), ironizou a discussão entre "monetaristas" e "desenvolvimentistas" na definição do rumo da política econômica nacional que derrubou o ex-ministro do Desenvolvimento
Indústria e Comércio Clóvis Carvalho, na semana passada. Na prática, deixou claro que uma ou outra opção são inviáveis sem o ajuste fiscal. Contrariando a visão do presidente Fernando Henrique Cardoso, de que, sob esse aspecto, a lição de casa da União foi feita, Covas declarou hoje que o governo federal "está longe" de fazer o ajuste promovido em São Paulo.
"Essa história de monetarismo e desenvolvimentismo é uma besteira; vocês querem que um cara que está no Ministério do Desenvolvimento fale de quê?; de crianças?", provocou o governador. "Quem faz a política é o governo; o ministro é um funcionário; o que o ministro Pedro Malan (da Fazenda, apontado como o líder dos monetaristas) faz é política do governo, não do Malan, assim como o que o Clóvis faz é política do governo, não do Clóvis."
Perguntado se tentaria impor um ritmo de desenvolvimento diferente do que o governo federal, disse que ainda "não é possível" fazer com que o País cresça 4%, 5% ao ano, como ele gostaria. "Mas há muita coisa que é possível aperfeiçoar sim", insistiu, sem especificar o que. Mais tarde, completou: "Aqui, está sendo feito, foi feito um ajuste fiscal que o governo federal está longe de fazer."
"Não que o governo federal não tenha feito esforço, mas
aqui, foi feito o ajuste sem aumentar nenhum imposto, só pelo lado da despesa", afirmou Covas. "No entanto, ninguém no Brasil tem um programa de habitação como São Paulo, por exemplo; mas eu cheguei aqui numa situação muito pior que o governo federal estava." Covas admitiu, porém, que Fernando Henrique "tem problemas" que ele não tem. "Não sou melhor que o presidente."
Apesar de tentar evitar um confronto direto com o presidente, o governador reivindicou o direito de poder opinar sobre a condução do País. Não só hoje, mas no discurso que fez durante a cerimônia de assinatura de um termo de compromisso entre o Estado, caminhoneiros e transportadoras para a distinção entre os valores de frete e pedágio - na tentativa de evitar que o custo do tributo recaia sobre os caminhoneiros -, fez até piada.
Ao encerrar o discurso, falando sobre a negociação que resultou no acordo, lembrou das "divergências de opinião" normais desse processo. "Se não se tratar de desenvolvimento, tudo bem", provocou Covas, referindo-se a Malan. Os protestos do ministro da Fazenda sobre declarações de Carvalho durante um seminário do PSDB teriam provocado a demissão do ministro do Desenvolvimento. "Se tratar de desenvolvimento, parece que atinge as pessoas e, portanto, não se pode falar no assunto."
Covas alega nunca se ter furtado o direito de criticar o presidente. A exemplo do que fez ao defender a redução da taxa de juros. Se a demissão de Carvalho pode ser interpretada como um "recado" para os aliados que defendem mudanças na política econômica, o governador disse que, para ele, isso "não faz a menor diferença".
"Quando eu faço sugestões ao governo, faço a um companheiro, por obrigação, não para contar vantagem", afirmou. "Sou governador de um Estado que tem 32 milhões de pessoas, que dá 47% da receita do governo federal; ouço o que pensam os trabalhadores, os empresários... e não transmito ao presidente da República?; ora essa!" Apesar de se fazer de desentendido sobre as declarações do presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-SP), Covas disse que todos têm o direito de falar e pressionar o governo de forma legítima. ACM deu prazo de três meses para que Malan mostrasse "os resultados efetivos da política econômica", sob o risco de também perder o cargo.
Antes de saber da escolha do nome do presidente do Grupo Camargo Corrêa, Alcides Tápias, para o lugar de Carvalho, Covas declarou que o presidente teria dificuldades em encontrar o substituto para o Desenvolvimento. "O ministério tem uma linha de ação, que ficou mais clara ainda, condicionada à linha de ação do Ministério da Fazenda", disse o governador. "Ou seja, o governo federal decidiu por esse caminho, não o Malan; eu até gosto do Malan, acho ele um burocrata de boa qualidade."
Mesmo com outra dose de ironia sobre Malan, Covas deixou claro o descontentamento sobre a política econômica e responsabilizou o presidente. Segundo ele, "não tem lógica submeter um ministério a outro". Ele completou: "Você não pode pendurar um ministério em outro porque são instituições de mesmo valor."
O governador defendeu a existência da pasta. "O erro está em imaginar que defender desenvolvimento significa defender a desordem da moeda; não é nada disso", declarou. "Agora, o Ministério do Desenvolvimento era uma segunda vertente para um segundo governo do presidente, que dava um sinal muito claro que se pretendia conjugar os dois fatores; ninguém pretende trocar um por outro." Para Covas, houve "vitórias extraordinárias" com o real, mas, "hoje, se reclama do desemprego, da renda, reclama-se de algumas coisas muito simples".
"Eu estou falando isso porque acho que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que é meu, de todos nós, precisa avançar em direções que estou sentindo na rua", insistiu. "Tenho a impressão que a mesma coisa pensava o Clóvis Carvalho; e estava numa discussão interna do partido mas, enfim, sobre isso (demissão de ministro) a gente não opina; é rigorosamente decisão de quem comanda."


