Covas e Barros choram lágrimas de crocodilo, diz Dirceu
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domingo, 08 de agosto de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 09 (AE) - O presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), comparou a "lágrimas de crocodilo" as críticas do governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), e do ex-ministro das Comunicações e vice-presidente nacional do PSDB para Assuntos de Política Econômica, Luiz Carlos Mendonça de Barros, à condução da atual política econômica.
"Acho que são lágrimas de crocodilo dos responsáveis por essa política porque o Mário Covas ficou em silêncio (quando foi feita a desvalorização) e o Mendonça de Barros participou de todas as decisões." Na semana passada, o ex-ministro disse que a área econômica é dominada por "burocratas muito atentos às questões macroeconômicas, mas insensíveis às necessidades da economia real". Ele considera "insustentável, no longo prazo"
a atual política de livre flutuação cambial. Hoje, Covas saiu em defesa do ex-ministro e afirmou que o pensamento econômico de Barros está muito próximo do dele.
"A verdade é que hoje não existe rumo no País, não existe unidade na base governista e o PFL vai ocupando espaço, menos por suas próprias virtudes e mais pelo desmanche do PSDB"
disse Dirceu, que esteve à tarde em Niterói, na Grande Rio, onde almoçou com lideranças locais do PT. O partido tem duas secretarias no governo do prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT), com quem o líder petista se encontrou em seguida.
Dirceu também criticou a análise do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o surgimento de uma nova classe média no Brasil, que, apesar de votar, não tem representatividade nas instituições políticas tradicionais - como o Congresso, partidos e sindicatos.
"Ele (Fernando Henrique) faz uma análise que é importante, mas não é o centro da contradição", afirmou. Segundo Dirceu, pior é a perda de soberania do País externamente
o aumento da concentração de renda e a deterioração das relações de trabalho registrados nos últimos anos. O presidente do PT não concorda que a nova classe média, a qual Fernando Henrique se refere, não tenha representatividade política.
"O PT representa esse novo setor; basta ver as cidades que o nosso partido governa, como Ribeirão Preto (interior de São Paulo), Porto Alegre, Blumenau (SC), que tiveram prefeitos eleitos por essa nova classe média", disse. Dirceu credita a atual falta de credibilidade das instituições políticas ao presidente, que teria permitido o fisiologismo, a compra de votos para a aprovação da reeleição e as "grandes negociatas" no processo de privatização do Sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás).
O deputado petista não quis comentar a declaração da vice-governadora do Rio, Benedita da Silva (PT), sobre a possibilidade de ter sido vítima de racismo no episódio que resultou na anulação, pelo diretório nacional, de cerca de 1,5 mil fichas de filiação ao diretório municipal. "Considero esse assunto encerrado", afirmou.
Ele não vê, no entanto, nenhum problema na intenção de Benedita em refiliar os desfiliados. "O problema do PT não é filiar, mas a forma como isso é feito, que deve estar dentro das regras do partido", avaliou.
Integrante da Articulação, da ala moderada do PT, Dirceu aproveitou a viagem ao Rio para criticar o lançamento do nome do deputado federal Milton Temer (PT-RJ), ligado à esquerda do partido, à sucessão dele. Os novos presidente e direção nacional do partido serão eleitos em novembro. Dirceu, que está no segundo mandato, ainda não oficializou a recandidatura, apesar de ter o apoio total da Articulação.
"Quem quer fazer discussão política não começa discutindo a presidência; por isso, ainda não me coloquei à disposição do partido (para um novo mandato)", disse. "O Milton Temer tem o direito de fazer isso, mas eu não começaria por aí; mais importante é discutir a nova linha política do partido, o novo estatuto, a nossa posição em relação ao Brasil." O presidente do PT apoiou a criação da Rede, nova tendência do partido liderada pelo ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro e pelo atual secretário-geral do PT, deputado Arlindo Chinaglia. A Rede poderá tornar-se o fiel da balança na escolha do novo presidente. "É muita pequenez dizer que o PT está dividido entre moderados e radicais, esquerda e direita; somos um partido pluralista, temos várias lideranças", disse.


