São Paulo, 15 (AE) - O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), decretou luto oficial por sete dias no Estado. Para o tucano, o ex-governador e ex-ministro das Relações Exteriores do governo do ex-presidente José Sarney (PMDB), Abreu Sodré, "fez história, desde os bancos escolares". Covas lembrou os tempos em que Sodré "pegou uma fase muito difícil, período em que estudou Direito no Largo São Francisco, uma época ditatorial do Estado Novo". Covas disse que Sodré "tem no seu acervo o mérito de ter sido um dos propugnadores pela luta contra o Estado Novo" e enalteceu o "homem com vínculos culturais fortes, que deixou obras como a Fundação Padre Anchieta".
"Atuou com muita intensidade", acrescentou Covas. "Ele tinha seus pontos de vista, havia os que concordavam e os que discordavam dele, nesta ou naquela circunstância, mas, sem dúvida nenhuma,1 é um homem que fica gravado nos anais de São Paulo como um nome muito significativo."
Sarney disse ter ficado "profundamente chocado com a perda de um amigo de 40 anos, um extraordinário homem público".
Para Sarney, de quem Sodré foi ministro das Relações Exteriores
"ele era um dos últimos daquela geração heróica que resistiu e conheceu os cárceres do Estado Novo". O ex-presidente disse que Sodré "tinha muita força de suas convicções e uma personalidade inconfundível, vivacidade intelectual, o gosto da vida e o sentimento de lealdade às pessoas". Como chanceler, lembrou Sarney, Sodré "foi o executor da nossa política que pôs o Brasil de frente para seus vizinhos da América Latina e sua passagem está marcada pela fundação do Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul)".
O deputado federal Delfim Netto (PPB-SP), ex-secretário da Fazenda do governo Sodré, afirmou que ele era "um bom administrador, inteligente". "Tinha humor próprio mas, acima de tudo, era um homem muito corajoso para fazer as coisas que tinham de ser feitas". O empresário Antônio Ermírio de Moraes, dono do Grupo Votorantim, falou da velha amizade e de "um homem digno, de postura reta, sempre avesso às maracutaias". Para Ermírio, Sodré "lutou pela democracia e isso é praticamente o resumo de sua vida".
O empresário contou que, recentemente, ele e Sodré estiveram na Associação de Assistência à Criança Defeituosa (AACD) - o ex-governador era presidente do conselho da associação. "Conversamos durante três horas - relatou Ermírio -
fizemos uma revisão de todo o sistema político nacional, desde a época dos militares até os dias de hoje; foi muito divertido porque ele tinha muito bom humor." "Sodré é um daqueles sábios de plantão que a minha geração cultiva", observou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. "É uma daquelas figuras que conseguia botar ordem na casa e fazer com que andássemos para frente", definiu.
Maluf disse que, "sem dúvida nenhuma, (Sodré) foi um exemplo, paradigma de homem público, um patriota que amou este Estado e este País". Segundo Maluf, o ex-governador "era um homem ético, que deixou para todos os políticos brasileiros um grande exemplo de dignidade".
O embaixador Luiz Felipe Seixas de Corrêa - ministro interino das Relações Exteriores - representou o presidente Fernando Henrique Cardoso, que mandou mensagem de solidariedade à família. "Soube elevar a política externa brasileira aos seus padrões mais positivos", disse o ministro. "É uma grande perda, por sua inteligência, sua maneira de ser, sua visão de mundo num estilo profundamente generoso."
O ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e das Relações Exteriores, Celso Lafer, falou do político que "desempenhou papel importante na resistência ao Estado Novo e na vida da República da Constituição de 1946; foi governador num momento difícil, tinha uma capacidade admirável de perceber as pessoas e, em poucas palavras, definí-las e entendê-las".

mockup