Cotas para os negros não resolvem o problema
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terça-feira, 08 de junho de 2004
Chiara Papali<br>Reportagem Local 
''Não basta criar cotas para o negro entrar na universidade, mas também é preciso que se crie políticas para mantê-lo no curso e garantir que ele se forme''. A opinião é da presidente do Conselho Municipal de Apoio à Comunidade Negra de Londrina, Vilma Santos de Oliveira, militante há 30 anos no movimento negro. Anunciada ontem, a reserva de 40% das vagas para estudantes de escolas públicas, sendo metade para negros, no vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL), já está causando repercussão na cidade. E a opinião de Vilma é compartilhada por quem defende e também por quem critica a criação de cotas para negros.
Para a advogada e presidente da Associação Afro-brasileira (Aabra) em Londrina, Maria Lucilda Santos, o sistema de cotas seria uma forma de reparação pelo fato dos negros terem sido marginalizados desde o final da escravidão, o que os deixou sem oportunidade de estudo, cultura e emprego. ''(A cota) Não vai resolver o problema, mas vai dar uma chance a mais para o negro. E a cultura e a educação são formas de ascender socialmente'', disse, ressaltando, que também é preciso garantir condições de estudo para o negro, como o acesso a livros e materiais didáticos, e alimentação, no caso de cursos em período integral.
Vilma elogiou a iniciativa da UEL, mas se preocupa com a manutenção dos alunos negros na universidade. Além dos aspectos econômicos, ela ressalta outra barreira a ser vencida, a do preconceito. Para ela, existe a necessidade de se ''educar'' os professores de maneira que eles não colaborem para a evasão escolar. ''Um professor que sabe que o aluno veio de escola pública e fica 'empurrando' lançamentos e lançamentos (de livros), está colaborando para que o aluno desanime e desista do curso'', exemplificou.
O sistema de cotas, para Vilma, já estaria sendo vivenciado pelo negro quando ela cita estatísticas da Fundação Palmares que apontam que o negro tem 30% a mais de chance que o branco de não completar um ano de vida, 40% a mais de chance de não completar o primário, e ainda 90% a mais de chance que o branco de não conseguir entrar na universidade. ''Os negros ocupam mais espaço nas penitenciárias e não tem ninguém preocupado com isso'', alertou.
O professor e presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Norte do Paraná, Alderi Luiz Ferraresi, está entre os que criticam a criação de cotas para negros, ''prejuízo para aquelas famílias que investiram numa educação melhor para os filhos''. Para ele, o sistema de cotas poderia ''mascarar'' um grande problema nacional, a falta de investimentos em educação básica. ''O governo pode entender que não precisa investir mais, que o problema da diferença de acesso já foi resolvido'', argumentou. Mesmo assim, ele se preocupa com a formação do aluno: ''Se vão abrir cota, que também garantam condições para que o curso seja feito em situação de igualdade. Senão, você vai ter o profissional da cota e o da não cota?''.


