Paris, 28 (AE) - Há dois dias, durante uma visita a alguns Estados da áfrica Negra, inclusive Togo, Jacques Chirac transmitiu sua lição habitual, explicando-lhes que não é correto desprezar os direitos humanos, principalmente porque os direitos do homem "são uma invenção francesa, do tempo da revolução de 1789". Aliás, estes mesmos direitos do homem servem também aos funcionários franceses sempre que visitam a China.
Neste caso, os ministros chineses ouvem com cortesia as demonstrações dos especialistas dos "direitos humanos" e, depois, todos passam a tratar de coisas sérias, como contratos, comércio, etc.
Hoje (28), "o feitiço virou contra o feiticeiro": a Corte Européia dos Direitos Humanos, com sede em Estrasburgo, condenou a França por "tortura". Uma coisa desagradável! A função de guardiã dos direitos humanos, que a França atribuiu a si mesma é muito gratificante. Prega-se a moral a todo o mundo. Mas o problema é que o mais importante é respeitar esses direitos humanos, pois, caso contrário...
Os romanos diziam: "A mulher de Cesar deve estar acima de qualquer suspeita". Para que a Corte Européia condene um país europeu é preciso entretanto que fatos graves sejam constatados (até agora, apenas a Turquia havia sido condenada, em 1996, por este motivo).
O caso remonta a 1991: um traficante de drogas, condenado há 13 anos de prisao foi submetido a tratamentos infamantes e perigosos por parte de cinco policiais. Não vamos descrever com detalhes estes maus tratos. Causa repugnância: golpes com tacos de beisebol, humilhações (o suspeito foi obrigado a ajoelhar-se e um policial urinou sobre ele...). Portanto, a acusação de tortura foi confirmada em Estrasburgo. A Corte Européia votou unanimemente a favor da condenação da França.
Não podemos deixar de nos alegrar com esta decisão. Mas não podemos também deixar de nos indignar pelo fato de as autoridades francesas terem tolerado tais práticas, sob pena de se fazer crer que a França é um país tão cruel, tão brutal, quanto o Chile de Pinochet, ou quanto as ditaduras frequentemente sanguinárias da áfrica Negra, pois, com toda evidência, não existe nenhuma relação entre estes diferentes casos: o que aconteceu em Paris em 1991 é um caso isolado, não é resultado de um sistema. Mas, seja como for, trata-se de um caso deplorável. Paris tem hoje boa aparência. Mas como continuar, depois disso, pregando a moral a todos os outros países?
Um caso singular, mas que infelizmente é mais frequente do que se acredita. Uma parte da polícia francesa adora essas imbecilidades. E reencontramos aqui o problema da emigração, esta chaga purulenta.
Efetivamente, é contra os estrangeiros ou contra franceses de origem árabe ou africana que com muita frequência os policiais realizam suas "festinhas". É verdade que estes emigrantes são frequentemente homens duros, homens arrogantes, na medida em que sua existência é difícil, na medida em que enfrentam a desconfiança e discriminações inconfessáveis.
São razões de sobra para obrigar os policiais a observar em relação aos emigrantes as mesmas regras de correção, de "direitos humanos", como se dizia em 1789, que são aplicadas a qualquer cidadão francês.
Este caso é antigo - aconteceu em 1991. Acreditamos que hoje ele não mais se repetiria: nem o presidente Jacques Chirac, nem o primeiro-ministro Lionel Jospin são suspeitos de complacência em relação às discriminações raciais. Mesmo assim, é preciso que as autoridades possuam poderes de controle para punir imediatamente os funcionários exaltados, maus ou estúpidos.

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