Corte diz ter evidências de crimes em meio a sinais de indiciamento de Milosevic
Haia, 26 (AE-AP) - Com crescentes especulações de que Slobodan Milosevic será indiciado em breve, o tribunal encarregado de processar crimes de guerra na Iugoslávia informou nesta quarta-feira (26) que já possui evidências de atrocidades "em massa".
A promotora chefe da corte das Nações Unidas, Louise Arbour, disse que faria "um importante anúncio" às 9h de quinta-feira, pelo horário de Brasília, mas que não teceria comentários sobre reportagem da CNN citando fontes diplomáticas européias não-identificadas indicando que um indiciamento contra o líder iugoslavo era iminente. O tribunal nunca comenta os indiciamentos antes de anunciá-los.
No entanto, uma fonte diplomática na sede da Otan em Bruxelas, Bélgica, disse à Associated Press que o indiciamento de Milosevic parecia ter sido trabalhado durante muitas semanas. "É uma outra maneira de pressioná-lo e efetivamente tentar detê-lo", disse a fonte, falando em condição de anonimato.
De fato, Milosevic pode já ter sido secretamente indiciado, uma tática que o tribunal de crimes de guerra da Iugoslávia utilizou para ter maior sucesso na captura de suspeitos pelas atrocidades cometidas na Guerra da Bósnia, quando foi criado.
Em Washington, a secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright disse que seria impróprio para ela comentar uma reportagem sobre um indiciamento que ainda está para acontecer. O porta-voz da Casa Branca Joe Lockhart, na Flórida, onde o presidente Bill Clinton passa férias, disse não ter comentários a fazer.
Como os relatos de supostos massacres e estupros continuaram chegando por intermédio de albaneses étnicos que fugiam de Kosovo, o tribunal recebeu um grande número de pedidos de grupos de direitos humanos, políticos e outros para indiciar importantes autoridades iugoslavas.
Nesta segunda-feira, o Senado dos Estados Unidos aprovou uma resolução por unanimidade pedindo uma "investigação vigorosa" de genocídio e outros crimes de guerra em Kosovo. Pediu também que o tribunal indiciasse "sem se importar com a posição em que ocupam no governo sérvio".
Ao fazer isso, a corte estaria trazendo acusações baseadas na tão falada "responsabilidade de comando" - a falha de líderes em evitar ou punir crimes de guerra cometidos por subordinados.
O porta-voz de Arbour, Paul Risley, disse em entrevista coletiva semanal em Haia que os investigadores da corte já haviam reunido "evidências de crimes de guerra em massa".
"O desafio não é receber a informação, mas em quais áreas focalizar", disse Risley. Ele não iria especificar, mas declarou: "Nós teremos muitas informações para sustentar as acusações."
O tribunal foi obrigado a confiar muito em relatos de testemunhas oculares sobre pessoas que fugiram para Macedônia e Albânia desde que as autoridades de Belgrado impediram que Arbour e seus assessores tivessem acesso a Kosovo. O tribunal tornou-se mais estridente nas últimas semanas em relação à urgência para reunir o máximo de evidências possíveis, temendo que os sérvios estivessem destruindo provas para apagar seus rastros.
À medida que os esforços diplomáticos para encerrar o conflito recuperava suas forças, também temia-se que um indiciamento de Milosevic poderia colocar os enviados ocidentais em posição complicada por ter de negociar com alguém considerado oficialmente suspeito de crimes de guerra.
"Você sabe o que ele fez e que ele é alguém que deveria ser um indiciado potencial. Apesar disso, nós precisamos dele para encontrar uma saída política", disse Dick Leurdijk, um analista de relações internacionais do Instituto Clingendael, em Haia. "É um dilema real. Que preço estamos dispostos a pagar para ter um acordo em Kosovo?"
Havia especulações de que um acordo negociado para o fim da guerra poderia incluir outro acordo concedendo a Milosevic pelo menos uma imunidade limitada para ser processado por crimes de guerra. No entanto, o tribunal também prometeu seguir a hierarquia até o topo. Harbour é famosa por ignorar as consequências políticas dos indiciamentos.
Arbour, uma juíza canadense conhecida por sua rigidez, não confirmou informações de que ela deixaria o tribunal em breve para assumir uma cadeira na Suprema Corte do Canadá, dizendo apenas que analisaria o convite se este fosse feito.





