Marcos Zanatta
De Maringá
O corte no fornecimento de água no Conjunto Santa Felicidade, bairro mais pobre de Maringá, está novamente revoltando os moradores. São 250 casas e segundo cálculos das famílias mais antigas pelo menos 10% perderam o hidrômetro e outros 20% estão sem o abastecimento regular. A Sanepar alerta que o problema no bairro é social e que desde que foi formado há 14 anos para erradicar favelas na zona urbana, o corte no fornecimento é rotina.
Algumas famílias estão sem água há mais de dois ou até três anos. A diarista Sueli Barbosa, mãe de seis filhos, diz que desempregada não conseguia pagar a conta de R$ 50,00. ‘‘Para negociar tem que pagar uma parte da multa de R$ 98,00 e não tenho nem para comer’’, reclama. Ela diz que o maior problema é morar no bairro, que é discriminado pela população da cidade. ‘‘A gente não encontra emprego porque mora no Santa Felicidade’’, afirma.
A doméstica Nair Pereira Deolinda, vizinha de Sueli, sem água há mais de um ano, conta que mentiu que morava em outro bairro para conseguir o emprego. ‘‘Depois a patroa descobriu e quase me despediu, mas compreendeu minha situação’’, revela. ‘‘Mas o salário mal dá para comer’’. O mais revoltado é o servidor público Antonio Cândido de Carvalho, que apesar de não ter a água cortada critica a cobrança de ‘‘taxa de serviço’’ pela Sanepar.
Ele disse à Folha que as mães têm que mandar as crianças para a creche, onde fazem a única refeição do dia. A situação é confirmada na casa da viúva Rosana dos Santos. Doméstica aposentada, ela tem quatro filhos e não conseguiu pagar as contas nos últimos quatro meses.
Os talões, que ela mostrou, trazem um consumo de R$ 8,00 e ‘‘taxas de serviços’’ de até R$ 23,00. ‘‘Não entendo porque eles cobram esse serviço se só vieram aqui para cortar a água’’, queixa-se.
O coordenador comercial da Sanepar em Maringá, Mário Evangelista, diz que a empresa não tem interesse em interromper o abastecimento, e que faz de tudo para negociar com os usuários inadimplentes. ‘‘O problema é que no Santa Felicidade a situação é mesmo crítica’’.
Ele explica que antes do corte o usuário é notificado pelo menos duas vezes. Se não houver resposta o abastecimento é suspenso. O normal, segundo Evangelista, é que as famílias procurem a Sanepar para um acordo.
A multa pelo corte é então dividida em parcelas e muitas vezes reduzido de R$ 98,00 para até R$ 27,00 (custo do serviço). O valor é cobrado junto com a conta seguinte. ‘‘Por isso, os moradores devem a taxa de serviço que está nas contas’’, explica. O problema é que mesmo depois de negociado e acertado entre a empresa e o usuário as contas não são pagas.
‘‘No bairro esse quadro é normal com muitas famílias e não podemos simplesmente isentar quem tem dificuldades financeiras’’, lamenta Evangelista. Ele revela ainda que existem problemas em muitos bairros, mas não na proporção do Santa Felicidade.

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