A Corregedoria do Ministério Público (MP) do Paraná está instaurando procedimento para apurar acusação feita contra o promotor Cláudio César Cortesia, de Quedas do Iguaçu (165 km a leste de Cascavel). Ele é acusado de ter forçado a menor Eliane Karling, 16 anos, a ratificar depoimento prestado à Polícia Civil sobre supostos crimes ocorridos no acampamento de sem-terra – o maior do estado – na área conhecida como ‘‘Bacia’’, em Quedas do Iguaçu. O caso coloca em confronto direto o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná com o MP da comarca e as polícias Civil e Militar.
A série de depoimentos controversos começou com acusações feitas pelos pais da menor, Juvelino, 61 anos, e Maria da Silva, 50 anos, ex-sem-terra que viveram no acampamento, onde estão 1.200 famílias. O casal foi apresentado à imprensa pelo 6º BPM de Cascavel, que tem jurisdição sobre Quedas do Iguaçu, no dia 20 de maio. Na ocasião, disseram que haviam sido expulsos do acampamento por terem conhecimento de crimes que ocorreram no local, entre eles, estupro de menores, tortura, cárcere privado e existência de drogas e armamento, cuja responsabilidade atribuíram a coordenadores do MST.
Segundo o casal, Eliane Karling, que vivia no acampamento com o marido, Valdecir Karling, 21 anos, e outras três menores que haviam morado com os pais no mesmo local tinham conhecimento dos fatos. Elas teriam confirmado as acusações à polícia. Na maior parte do casos, porém, apenas teriam ouvido falar sobre os crimes e violência. Mais tarde, as outras menores revelaram publicamente que Maria da Silva havia prometido R$ 10,00 a cada uma para que fizessem as acusações. Mas, segundo disse, depois negou-se a pagar.
No final de agosto, Eliane esteve em Cascavel acompanhada pela advogada do MST, Andréia Indalêncio, e desmentiu as acusações feitas por seus pais. Ela disse não saber o que os levou a fazer a denúncia. Disse também ter sido forçada pela Polícia Civil a dar depoimento, redigido pelo próprio delegado, Ítalo Biancardi Neto.
Eliane acrescentou estar ‘‘assustada’’, pois nunca havia ido a uma delegacia e apenas concordava com o que o delegado dizia. ‘‘Todas as menores se dispuseram prestar novo depoimento à polícia, contrário ao anterior, mas o delegado se recusou a ouvi-las. Ele tenta permanentemente criminalizar o MST’’, sustenta a advogada. Ela afirmou ainda que houve tentativa de convencer o promotor Cláudio César Cortesia a ouvi-las, ‘‘mas ele também se recusou’’.
Na semana passada, porém, o representante do MP decidiu ouvir Eliane e, pelos termos do novo depoimento, ela reafirmou o que havia dito ao delegado – novamente dizendo ter apenas ouvido falar sobre os crimes. Disse ainda ter sido ‘‘forçada’’ pela advogada a dar as declarações em Cascavel e sob ameaça de ser expulsa com o marido do acampamento e outras represálias, inclusive a seus pais, que hoje moram em Quedas do Iguaçu.
No final da semana passada, acompanhados de outra advogada do MST, Cristiane Martins, Eliane e o marido estiveram na Corregedoria-Geral do MP, em Curitiba, onde ela prestou um terceiro depoimento. Eliane acusou o promotor de tê-la forçado a desmentir o que havia dito em Cascavel e manter os termos depoimento que deu à Polícia Civil sob pena de ela e o marido serem processados e acabarem presos. Cláudio César Cortesia também teria tentado forçar Eliane a contestar reportagens com seu desmentido às acusações iniciais. No entanto, ela ratificou os termos das reportagens.

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