Corpo novo, vida nova?
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de junho de 2005
Chiara Papali<br>Reportagem Local 
O que a cirurgia de estômago muda na vida de um obeso, além da perda de peso e melhora na saúde em geral? Se a pergunta fosse feita à psicóloga Maria Salete Arenales Loli, de Apucarana, provavelmente a resposta seria: ''nada'' ou ''quase nada''.
Especialista na área de preparo psicológico de pacientes obesos para a cirurgia, o enfoque do seu trabalho foi premiado pela Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade, em março deste ano. Tema que também deve render um livro para o próximo ano, sobre o preparo psíquico com foco na cirurgia bariátrica.
Mas, esse ''nada'' tem explicação. Segundo a psicóloga, não são poucos os obesos que vêem na mesa de cirurgia a ''solução'' para todos os seus problemas - a falta de amigos, o emprego chato, o casamento instável. E, claro, não conseguem resolver isso só porque ficaram magros.
''Você levanta o histórico da obesidade da pessoa, em que momentos da vida foi magro e o que fez, e questiona o que ela espera da cirurgia'', relata Salete. Não é raro ouvir que a pessoa quer ter amigos, passear, dançar, ter uma vida social agitada. ''Mas você descobre que, em vários momentos da vida, ela foi magra e não se deu isso, essa vida social. Então não é a cirurgia que vai dar'', constata.
Nos Estados Unidos, estatísticas apontam que, de 600 mil pacientes que emagreceram através da cirurgia, 52% voltaram a engordar, passados 5 a 10 anos. ''Nos EUA, a idéia era que o problema da obesidade estaria resolvido com a cirurgia, e não é bem assim'', ressalta o endocrinologista e metabologista José Ormildo Cervantes Loli. Segundo ele, o Brasil ''só perde para os EUA'' em número de cirurgias de obesidade, com cerca de 1,5 mil procedimentos por ano .
Para a psicóloga é preciso quebrar o mito de que apenas a cirurgia vai promover o emagrecimento, sem a contribuição do paciente. ''A cirurgia é uma contribuição significativa, sim. Mas, a participação do paciente é uma parcela que não pode ser ignorada, sob pena da cirurgia ficar como a erva daninha -cortada apenas por cima, a raiz continua'', salienta.
Salete explica que o obeso precisa aprender a resolver os problemas de uma outra forma, que não ''atacar'' a comida. ''O obeso que vai fazer a cirurgia precisa ter uma questão em mente - o que vai fazer para resolver problemas, se estiver impedido de comer? Se brigar com o marido ou a esposa, ficar sozinho ou irritado, o que vai fazer, se não tiver o recurso da comida?'', exemplifica.
Tais perguntas já levaram alguns pacientes, conta Salete, a desistir da cirurgia. O número é pequeno - apenas 1% dos que pretendem fazer a cirurgia desistem ao longo do processo. ''O importante é não deixar o paciente ir enganado para a cirurgia, isso sim é muito frustrante''.


