Cuiabá, 09 (AE) - O juiz Leopoldino Marques do Amaral, de 55 anos, da 2ª Vara de Família e Sucessões de Cuiabá, foi assassinado com um tiro na cabeça, em Concepción, no Paraguai. A confirmação foi feita hoje pelo cônsul brasileiro na cidade, Gabriel Roriz Flores. Uma caminhonete S-10, idêntica a que pertencia ao magistrado, foi localizada em Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
Um dos oito filhos do juiz, Leopoldo Gattais Amaral, reconheceu o corpo. O corpo do magistrado, que denunciou desembargadores do Tribunal de Justiça (TJ) de Mato Grosso à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário no Senado e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), chegou às 11h15 ao Aeroporto Internacional de Cuiabá. Amaral será velado na Academia Mato-Grossense de Letras - onde ocupava a cadeira de número 9, autor de dois livros. O sepultamento está previsto para às 8 horas de amanhã (10), no Cemitério Parque Bom Jesus, de Cuiabá.
Amaral é autor de denúncias contra sobre o envolvimento de desembargadores com o narcotráfico, venda de sentenças, nepotismo, entre outras irregularidades. Por outro lado, vinha sendo investigado sob acusação de ter desviado dinheiro de depósitos bancários judiciais.
O assassinato do juiz está sendo apurado por uma comissão formada pelas Polícias Internacional (Interpol) e Federal (PF), Secretaria de Segurança Pública do Estado e Ministério Público Federal (MPF). Segundo o superintendente da PF em Mato Grosso, Jorge Luiz Bezerra, a comissão tomou o depoimento de um dos três homens que foram visto pela última vez com o juiz . Eles estava em Cáceres (Oeste do Estado, divisa com a Bolívia), onde possívelmente, de acordo com a PF, o juiz investigava o envolvimento de membros do Judiciário de Mato Grosso com o narcotráfico.
O MPF de Mato Grosso, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Assembléia Legislativa do Estado devem protocolar amanhã em Brasília um pedido de intervenção federal no Poder Judiciário de Mato Grosso. O procurador- geral da República, Geraldo Brindeiro, foi comunicado oficialmente hoje à tarde sobre o caso.
O TJ de Mato Grosso, em nota oficial emitida hoje, dá a posição sobre o assassinato de Amaral. A nota, assinada pelo presidente do TJ, desembargador Wandir Clait Duarte, diz que todas as providências estão sendo tomadas pelo Poder Judiciário, no sentido de elucidar, com o máximo rigor, todos os fatos apontados (com exames e perícias necessárias), tendo sido até mesmo enviado ofícios às autoridades estaduais e federais competentes, visando à adoção dessas providências e do traslado do corpo encontrado no Paraguai para a capital de Mato Grosso.
"O TJ deseja, em nome da magistratura, esclarecer que estamos imparciais, sem nos importarmos com as denúncias do juiz contra o TJ; nada vai abalar nossa serenidade, equilíbrio e imparcialidade no caso; temos o maior interesse na apuração da possível morte do juiz", disse Duarte.
A família de Amaral, tão logo foi informada da confirmação da morte, pediu ao presidente da OAB do Mato Grosso, Ussiel Tavares, que a entidade acompanhe o episódio. Segundo familiares, diante das circunstâncias que envolvem o caso, eles dizem não saber mais em quem confiar no Estado.
Tavares considerou estranha a afirmação feita pelo presidente da CPI do Judiciário, Ramez Tebet (PMDB-MS), de que o juiz não protocolou a denúncia contra o TJ na comissão. "A informação que eu tenho é que a denúncia foi protocolada na CPI", ressaltou.
Tavares disse que irá verificar se a denúncia foi ou não protocolada na CPI. "É uma denúncia grave, que precisa ser apurada", observou. Ele informou que vai acionar membros da OAB em Brasília para fazer a checagem sobre o caso. Amaral afirmou, diversas vezes, em entrevista a imprensa local, que iria ser convocado para depor à CPI do Judiciário e que havia protocolado a denúncia.
A PF suspeita que o juiz estivesse fazendo investigação própria sobre narcotraficantes. O magistrado almoçou no dia 2 com dois advogados, em Cáceres, a 280 quilômetros de Cuiabá.
A revelação foi feita hoje de manhã pelo motorista do juiz, Orlando Fernandes Sampaio, em depoimento à PF, que investiga o assassinato do magistrado.
O juiz havia afirmado à CPI do Judiciário e ao Ministério Público, no TJ, que os colegas do tribunal estadual praticaram nepotismo (contratação de parentes), manipulação de julgamentos, improbidade administrativa e recebimento de vantagem indevida.
Segundo ele, o iate de um desembargador do TJ teria sido implodido pelas Polícias Militar e Federal porque estaria transportando éter e acetona.
Amaral também afirmou que os membros do tribunal local recebiam mais do que R$ 10,8 mil, o maior salário de ministro do STF. O juiz disse que comunicou ao STF, no dia 16, que estava recebendo ameaças de morte em razão de denúncias feitas por ele contra a Justiça estadual.
Ele havia apresentado uma ação no STF em que pedia a suspensão do processo disciplinar movido contra ele pelo próprio TJ, o alvo das acusações de irregularidades.
O presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Luiz Fernando de Carvalho, divulgou nota afirmando que a PF está conduzindo as investigações sobre o crime.
A notícia de possibilidade de assassinato de Amaral chocou os deputados estaduais. Por conta disso, a deputada Serys Slhessarenko (PT) apresentaria ainda na sessão noturna de hoje um requerimento para que a Assembléia Legislativa representasse a Brindeiro para que ele pedisse a intervenção federal no TJ de Mato Grosso.
Serys disse que, caso o requerimento fosse rejeitado pelos demais deputados, ela mesma ingressaria com representação na Procuradoria- Geral da República (PGR). "Estou muito abalada com a questão; esse caso precisa ser apurado com rigor para a sobrevivência do Estado", analisou Serys.
Outros parlamentares se posicionaram a favor da apuração do assassinato do juiz. O deputado Gilney Viana (PT) disse que "Mato Grosso entrou no caos". O tucano Carlão Nascimento (PSDB) afirmou que o caso reforça as investigações contra o Judiciário e vice-versa. O deputado Emanuel Pinheiro (PFL) disse que, tão logo saia o resultado da necropsia, dará a opinião.
O deputado Pedro Satélite (PSDB) disse que a morte do juiz "desmoraliza o Judiciário em nível nacional" .O juiz federal Sebastião da Silva esclareceu hoje à tarde que o pedido de intervenção, constitucionalmente, só pode ser feito ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo procurador-geral da República.
Ele disse também que a opinião dos juízes federais é de haver necessidade urgente "de que se apure o caso com todo o rigor, senão, vai imperar o banditismo em Mato Grosso e ninguém terá mais segurança para trabalhar".
O juiz saiu do hotel como se fosse voltar "para ficar mais alguns dias", revela a dona do Hotel Beira-Rio, em Cuiabá, onde estava hospedado. "Se Deus quiser, eu ainda volto aqui para ficar mais alguns dias." Essas foram as últimas palavras de que se tem notícias de Amaral, na sexta-feira (03), por volta das 23 horas, quando saiu do hotel. O juiz saiu com a picape S-10, cabina dupla, cor prata, de acordo com a proprietária do hotel, que acompanhou o carro até o portão.
O juiz saiu dirigindo o próprio automóvel. "O juiz podia estar nervoso; ele tentou ligar o veículo ainda no estacionamento e teve de abrir o capô várias vezes; como estava sem óculos, pedi para ele (Amaral) abrir o cadeado; o juiz fez isso, sem problemas." "Depois, ele entrou no carro e saiu, dirigindo com dificuldades; pode ser o nervosismo", revelou a proprietária.
Familiares do magistrado informaram que Amaral detestava dirigir, e o veículo havia apresentado defeito anteriormente. A proprietária do hotel informou que o juiz havia se hospedado no dia 2, por volta das 21 horas, permanecendo por lá cerca de 26 horas. Nesse período, ele fez dezenas de ligações por meio do telefone celular e recebeu algumas.
Nesse tempo, o juiz teve o comportamento de quem estivesse se escondendo. Ele estava muito calmo, o que, segundo familiares, contraria o humor do magistrado, sempre nervoso e falante. Na sexta-feira, o juiz ficou o tempo todo falando ao telefone celular. Funcionários conseguiram perceber que Amaral falava com a filha e mandou chamar a mãe dela. Ele estava somente somente com uma sacola de couro, uma bolsa e dois cabides com roupas.

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