Corpo de professora aparece em viatura
Dimitri do Valle
De Curitiba
O corpo da professora curitibana Beatriz de Barros Pierin e Silva, 30 anos, desaparecido há quatro dias, foi encontrado misteriosamente na madrugada de ontem em Registro (SP). O cadáver estava abandonado no interior de uma viatura do Instituto Médico Legal (IML) do município, acusado de ter participação no desaparecimento de Beatriz. A professora foi uma das 18 vítimas do acidente entre o ônibus da Viação Itapemirim e um contêiner que tombou de uma carreta. A tragédia aconteceu na BR-116, em Miracatu (SP), no final da madrugada de segunda-feira.
A suspeita da família é de que o corpo de Beatriz foi desviado para fins comerciais. Funcionários da funerária São Camilo, de Miracatu, e do IML de Registro, estariam envolvidos no escândalo. O desvio do corpo serviria para beneficiar uma segunda empresa funerária ainda não identificada. Como é a única funerária de Miracatu, a São Camilo ficou com a responsabilidade de providenciar os serviços funerários para as famílias dos passageiros mortos.
Depois de quatro dias de buscas, que tiveram o apoio de um helicóptero da Polícia Civil paulista, o corpo de Beatriz foi sepultado às 17 horas de ontem no cemitério Parque Iguaçu, em Curitiba, na presença de amigos e familiares. Ela deixa dois filhos, um garoto de 11 anos e uma menina de cinco anos. Beatriz viajava semanalmente para preparar sua defesa de tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Em Curitiba, trabalhava no Departamento de Matemática da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Pela primeira vez desde que o corpo desapareceu, o delegado de Miracatu, Flávio Ruiz Gastaldi, reconheceu que existem indícios da ocorrência da participação entre funerárias e o IML de Registro. Pode ser isso aí. Vamos ouvir todo mundo de novo. É muito estranho, comentou. A polícia abriu inquérito para apurar a suposta ocultação e subtração de cadáver. O delegado relatou que o corpo foi encontrado por volta da 1h30 de ontem. Os funcionários do IML saíram para recolher o corpo de um caminhoneiro que morreu em acidente na BR-116. Ao preparar o caminhão, eles notaram a presença do corpo da professora. O cadáver estava numa das gavetas da viatura estacionada no pátio do IML.
Certamente o corpo da minha esposa foi plantado. Com certeza, ele não ficou esquecido desde o acidente dentro deste veículo, afirmou o empresário Sérgio Amed e Silva, 31 anos. Ele acredita que a funerária que recebeu o corpo só não teve tempo de entrar em contato com a família antes que o desaparecimento fosse notado pela família.
O irmão de Beatriz, o médico João Maximiniano Pierin de Barros, 29 anos, fez o reconhecimento do corpo. Durante a inspeção, ele percebeu que as gavetas da viatura tinham sido lavadas, o que reforça a tese de que o cadáver foi desovado. O corpo da professora não foi violado, segundo os familiares. Pelo adiantado estado de decomposição, o caixão não foi aberto durante o velório. Para o marido de Beatriz, a confirmação da morte de Beatriz encerra a primeira fase do caso. É um momento de tristeza, mas também de alegria, pois poderemos dar a ela um enterro digno.
Silva garantiu: Não vamos nos acomodar enquanto todos os culpados por esta tragédia não forem punidos. O empresário comentou que o corpo só apareceu porque houve intervenção direta do governador Mário Covas, que ficou preocupado com a dimensão que o caso ganhou na mídia durante toda a semana.
A Folha tentou ouvir representantes da São Camilo. O funcionário que se identificou apenas por Polu disse que ninguém está autorizado a falar sobre as denúncias. Também no IML de Registro nenhum funcionário poderá fazer pronunciamentos.





