Arquivo FolhaFrancis era bastante precavido com sua saúde, segundo embaixadorNOVA YORK - O corpo do jornalista, escritor e colunista Paulo Francis, 66 anos, permaneceu ontem no necrotério Basile, no Brooklyn. Segundo a proprietária Andrea Basile, Francis foi embalsamado dentro do procedimento normal. Hoje pela manhã, o corpo segue para a casa funerária Krtil John, no bairro de Yorkville, em Manhattan, onde será velado entre 11 horas às 14 horas. Francis morreu anteontem de manhã, em sua casa, em Nova York, vítima de ataque cardíaco.
Segundo o embaixador Marcus de Vincenzi, todo o procedimento burocrático para a liberação do corpo transcorreu sem maiores problemas. O caixão será transportado no vôo 861 da Varig, que deixa o aeroporto John Kennedy às 21h45, chegando ao Rio às 10h15. Francis será velado então na Capela 2, do cemitério carioca São João Batista. O sepultamento está marcado para às 17 horas de amanhã.
Segundo o embaixador Marcus de Vicenzi, amigo pessoal do jornalista há 20 anos, Francis, que teve dois tumores benignos removidos em 1973 e 1990, era bastante precavido com sua saúde, ‘‘sempre fazendo check-ups regulares’’. Ele revelou ainda que o jornalista passava por uma fase de grande tranquilidade. Marcus de Vincenzi e seu assessor do consulado brasileiro em Nova York, Dário Campos, ajudaram a mulher de Francis, a jornalista Sônia Nolasco, na preparação do processo burocrático de liberação do corpo.
Sônia Nolasco já tinha reserva para o Rio de Janeiro, no vôo 861 da Varig. Ela iria passar o Carnaval com a mãe. ‘‘Por uma ironia, agora ela segue em companhia do corpo de Francis’’, disse o correspondente da ‘‘Rede Globo’’ em Nova York e amigo de Sônia, Edney Silvestre.
Silvestre, que produzia com Francis o programa de entrevistas Milênio, exibido com sucesso no canal a cabo GloboNews, foi uma das últimas pessoas a encontrar o jornalista na véspera de sua morte. Eles almoçaram na tarde de segunda no restaurante japonês Suibi, na rua 53, próximo a sede da Rede Globo na cidade. ‘‘Como sempre, ele estava extremamente engraçado e fazendo piadas da votação da Câmara dos Deputados para o tópico da reeleição presidencial’’, revelou o jornalista.
O correspondente da Globo, que voltava do Colorado, onde foi fazer uma reportagem, disse que se encontrou com Francis para discutir algumas questões do programa. ‘‘Ele queria muito entrevistar o cineasta Elia Kazan’’, disse. ‘‘Francis foi um dos privilegiados que assistiram a estréia de Marlon Brando na Broadway, sob a supervisão de Kazan, na peça Um Bonde Chamado Desejo’’, acrescentou. ‘‘O único empecilho para a entrevista é que Kazan (89 anos) não estava se sentindo muito bem’’.
Duas entrevistas de Paulo Francis para o programa Milênio, que deve continuar no ar, permanecem inéditas. A primeira foi com Andrew Sullivan, jornalista soropositivo, ex-editor da conceituada revista New Republic, e a última com Patricia Powell, especialista em suícidio assistido e especializada em ética médica pela Universidade de Columbia. ‘‘Francis ficou impressionado com a figura de Sullivan’’, conta Silvestre. ‘‘Na entrevista de 25 minutos, falaram sobre política, Aids, a eminência da morte e identidade sexual’’.
Depois do almoço com Silvestre e de gravar sua participação no Jornal da Globo, Francis posou para sua última sessão de fotos, para um artigo a ser publicado na revista Carta Capital. A noite jantou, em companhia de Sônia, num restaurante chinês nas imediações de seu apartamento duplex, no centro de Manhattan. ‘‘Francis brincava que estava tentando se tornar mais religioso para casar na igreja com Sônia’’, diz Silvestre.

mockup