Agência Estado
De Belém
O coronel Mário Pantoja, acusado de participar da morte de 19 sem-terra que interditaram a rodovia PA-150, em Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996, afirmou ontem que o governador Almir Gabriel (PSDB) determinou que a Polícia Militar retornasse ao local para garantir a desobstrução da estrada, mesmo depois do conflito. O coronel Pantoja, major José Maria de Oliveira e capitão Raimundo Almendra Lameira sentaram ontem no banco dos réus, na primeira das 27 sessões do julgamento dos 150 PMs.
Os depoimentos dos três oficiais apresentaram diversas contradições. Os militares procuraram jogar a culpa das mortes no comando da corporação, muitas vezes citando que o governador era o responsável pelas ordens repassadas pelo comandante da PM na época, coronel Fabiano Lopes. ‘‘Ele (o governador) mandou dizer que se a estrada fosse interditada novamente, que retornássemos ao local’’, afirmou Pantoja.
Segundo Pantoja, o governador foi alertado por ele de que a PM no sul do Pará não estava preparada para realizar a missão. A resposta, transmitida pelo comandante da corporação, conforme o coronel Pantoja, foi a de que o governo estava ciente das dificuldades, mas eram para ser utilizados todos os recursos que a Polícia Militar tinha para desobstruir a estrada.
Os três oficiais asseguraram que não sabiam de onde partiram os primeiros tiros durante o confronto. Mas afirmaram que, antes do enfrentamento, houve agressão dos trabalhadores, que estavam com paus, pedras, foices, machados e até revólveres.
‘‘Quando ainda estava em Eldorado, fiz uma tentativa por telefone com o ajudante de ordens do governador, para que localizasse o comandante Lopes’’, contou o major Oliveira. ‘‘A intenção era reavaliar a ordem de desobstrução da rodovia’’. Segundo o oficial, ninguém foi localizado. Oliveira ficou no comando das tropas que estavam instaladas na estrada que dá acesso a Eldorado dos Carajás, enquanto Pantoja ficou do lado de Marabá. Os sem-terra, estavam no meio das tropas.
‘‘Quando a tropa de Marabá chegou, ouviu os tiros e o barulho das bombas de efeito moral’’, disse Oliveira. Ele afirmou que os sem-terra avançaram para cima da tropa utilizando atiradores, que supostamente estariam escondidos em um milharal.
Ele e Pantoja entraram em contradição quando referiram-se ao número de mortos. Enquanto o coronel revelava que não sabia se existiam mortos e feridos no confronto, Oliveira afirmou que chegou a contar seis cadáveres. O coronel disse que não presenciou nenhum dos militares atirando, mas Lameira assegurou que os policiais sob seu comando atiraram várias vezes para o alto para intimidar os sem-terra. Além disso, Pantoja disse que só comunicou ao comando da PM o que tinha ocorrido na rodovia PA-150 quando chegou ao quartel, em Marabá.
‘‘O comandante disse que iria comunicar ao governador e depois me ligaria’’, disse Pantoja. ‘‘Ele me ligou às 23 horas - seis horas depois do confronto na estrada - e comunicou que o governador havia dito que, se novamente a estrada fosse interditada, era para retornarmos ao local.’’ O governador Almir Gabriel seria ouvido ainda ontem como testemunha da defesa.No primeiro dia de julgamento, um dos acusados pelo massacre declara que governador repassou à PM ordens para a ação
France PresseDorFrancinete dos Santos, sem-terra no Pará, chora abraçada à filha enquanto os primeiros réus são julgados pelo massacre de Eldorado dos Carajás

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