Coronel nega culpa por mortes no Carandiru
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quarta-feira, 20 de junho de 2001
Paulo Roberto Lopes Agência FolhaDe São Paulo 
Quase nove anos depois do massacre de presos da Casa de Detenção de Carandiru, em São Paulo, o coronel de reserva Ubiratan Guimarães, 58, acusado de ser o responsável pelas mortes, disse ontem à juíza Maria Cristina Cotrofe que, se a minha intenção fosse matar, teriam morrido os outros 2 mil (que estavam no pavilhão que foi invadido por policiais militares), e não só os 111.
O julgamento de Guimarães começou ontem e deve durar 20 dias. Em seu interrogatório, que foi iniciado às 11h20 e durou 20 minutos, ele afirmou que ninguém mandou matar. Ele disse à juíza que o propósito dos policiais militares, quando invadiram o pavilhão 9 da detenção, foi o de acabar com uma rebelião que ali estava ocorrendo.
Guimarães afirmou que, quando começaram os disparos, ele foi atingido por uma explosão, ficando, em consequência disso, desacordado. Disse que, em seguida, foi levado para um pronto-socorro, onde foi socorrido.
Questionado duas vezes pela juíza sobre ele ter permitido o uso de metralhadoras, o coronel respondeu que deu permissão porque elas fazem parte do armamento da tropa. Foi o momento mais tenso da sessão.
A questão do uso de metralhadora é importante porque ela pode evidenciar que houve homicídio doloso (intencional). Praticamente um terço da tropa estava armada com fuzis e metralhadoras, afirmou o promotor Carlos Cardoso, assessor de direitos humanos da Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo.
O Ministério Público deve insistir nesse detalhe para buscar a condenação do coronel, que liderou a ação no dia do massacre. Seria absurdo que o comandante autorizasse a entrada de metralhadoras ali. Cardoso disse que as afirmações de Guimarães invocam a lógica da barbárie. É como se Hitler tivesse dito que só matou 6 milhões de judeus, e não todos eles, afirmou.
Após o interrogatório, que foi realizado no 2º Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste, um homem teve de ser retirado do plenário porque tinha chamado o coronel de assassino.
O plenário ficou lotado. Parentes de vítimas, representantes de organizações não-governamentais, advogados e jornalistas ocuparam as 60 cadeiras do local.
O julgamento começou com o sorteio dos nomes para o corpo do júri, que acabou sendo composto por cinco homens e duas mulheres.
Durante o sorteio, o advogado do coronel, Vicente Cascione, recusou dois pessoas para ser juradas, e o promotor Felipe Cavalcanti, uma. Pela lei, o motivo da recusa não precisa ser explicitado.


