Teresina, 18 (AE) - O coronel da reserva da Polícia Militar do Piauí José Viriato Correia Lima, de 49 anos, apontado pelas Polícias Civil e Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) como chefe do crime organizado no Estado recusou-se hoje a responder as perguntas no interrogatório. "O sr. mandou espancar e dar tiros no joelho do jornalista?", perguntou o delegado Carlos Costa. "Reservo-me ao direito de falar somente em juízo", respondeu o coronel.
Lima foi levado ao prédio da PF na manhã de hoje, fortemente escoltado, ao ser indiciado por tentativa de assassinato que teve como vítima o jornalista Efren Ribeiro, em setembro, e por formação de quadrilha.
Acusado de chefiar um grupo envolvido em assassinatos, sequestros, extorsões, roubo de carro e cargas, lavagem de dinheiro e falsificação de notas fiscais, Lima deveria ser interrogado por Costa e pelo promotor Afonso Gil Castelo Branco.
"Nas fitas gravadas da escuta telefônica em poder da investigação e da Polícia Federal, o sr. mandou atirar no jornalista e ainda imitou o som das balas, com Pum, pum; é verdade?"
"Reservo-me ao direito de falar somente em juízo", voltou a responder. Diante das negativas, o delegado Costa decidiu não fazer mais perguntas a Lima. O promotor pretendia mandar o oficial da reserva da PM para um presídio normal de Teresina, a Casa de Custódia.
O advogado de Lima procurou imediatamente o Tribunal de Justiça (TJ) e conseguiu que ele voltasse para o quartel da PM, onde está numa cela especial desde a semana passada, quando se apresentou à polícia.
O coronel teria mandado três dos subordinados, o contador Francisco Domingos de Souza, mais conhecido como "Domingão" e os soldados João Tomé e Xavier Souza, espancar o jornalista , ferí-lo a golpes de facão e dar tiros no joelho por ter se irritado com uma noticia publicada na coluna de Ribeiro no jornal "Meio Norte", de Teresina. Os subordinados do PM, depois das agressões, decidiram não atirar nas pernas do jornalista. O nome do militar da reserva não fora citado no texto. Apenas as iniciais dele: C.L.
"Foi o suficiente que agissem dessa maneira truculenta", afirmou o delegado Robert Rios Magalhães, superintendente da PF do Piauí e responsável pelo grampo dos telefones durante oito meses.
O advogado Ezequiel Miranda Dias, ex-promotor público e defensor do chefe do crime organizado, declarou que vai tentar na quarta-feira (20) revogar a prisão preventiva, decretada contra o cliente e "Domingão", o homem que cuida de toda a papelada dos negócios lícitos e ilícitos de Lima. Ele somente vai recorrer quarta-feira por causa do feriado de amanhã (19) no Estado - o Dia do Piauí.
Dias disse: "Vão querer atribuir tudo ao meu cliente; se ele fez, vai pagar, mas tudo isso que estão publicando é um grande exagero." Ele disse também que, se conseguir junto ao TJ a revogação da prisão de Lima, ele vai continuar morando no quartel da PM.
Com tudo que está sendo noticiado, se ele ficar em liberdade, vai correr risco de vida. Uma demonstração que a população de Teresina perdeu o medo de Lima e dos cúmplices dele foi dada na saída do camburão, com o coronel sentado no banco de trás, do prédio a PF. Dezenas passaram a gritar "Cadeia, cadeia
cadeia, assassino, assassino".
O promotor de Justiça Hosaias Matos de Oliveira, do 1.º Tribunal do Juri, que substituiu o promotor João Benigno, afastado do Ministério Público por suspeita de fazer parte do grupo de Lima, declarou hoje que serão reabertas as investigações para esclarecer pelo menos 50 assassinatos que ficaram sem solução, nas gavetas das delegacias distritais, da Delegacia de Homicídios e nos processos arquivados nas varas criminais.
O levantamento começou a ser feito hoje. Os dois primeiros inquéritos entregues pelo promotor à Polícia Civil são os das mortes de "Zé Kelé", segurança de Lima, e do engenheiro José Ferreira Castelo Branco. No primeiro caso, o coronel é acusado de ter feito seguro de vida de "Zé Kelé", pondo a mulher e filhas como beneficiárias de 70% do prêmio. O segurança foi morto dias depois do seguro, perto da casa de um irmão de Lima que também é PM. O seguro de R$ 600 mil foi pago. A mulher e a mãe de "Zé Kelé", que deveriam receber 30%, não viram o dinheiro.
Na morte do engenheiro, a mulher dele, sobrinha de Lima, foi indiciada como mandante do crime. O coronel é suspeito de ter mandado os cúmplices matar Castelo Branco. O promotor explicou que esses dois casos serão os primeiros na reabertura de dezenas de investigações de ocorrências sem solução.
"Vamos examinar os inquéritos e processos dos últimos três anos e, entre os casos nebulosos, está o do assassinato do delegado Arias Filho, morto com um tiro pelas costas, no centro de Teresina, a mando de Correia Lima." No dia do julgamento do acusado do crime, o soldado da PM Francisco Moreira do Nascimento, homem de confiança de Lima, e vários capangas sentaram na primeira fila do tribunal. "Os jurados foram coagidos", disse o promotor Oliveira. Nascimento foi absolvido por unanimidade, mesmo tendo matado o delegado com um tiro nas costas. O juiz que presidiu o julgamento, João Pinheiro, foi afastado pelo TJ, como suspeito de fazer parte do esquema do coronel. O promotor da acusação, João Benigno, não recorreu.
Ele também é suspeito de fazer parte do grupo de Lima. Nas fitas em poder das Polícias Civil e Federal, com 700 horas de gravação das conversas do coronel e dos cúmplices dele, políticos, juízes e membros da quadrilha, há um diálogo que, segundo os policias civis, ligam o ex-chefe de Gabinete Militar do governo, o coronel PM Odiwal Falcão, com José Carlos Bezerra de Sá, mais conhecido por "Mazuca", um empresário de Teresina.
A conversa é sobre a entrega de notas fiscais, num total de R$ 21 mil, em nome da G.M. Aviação Aeronáutica, pois ele deveria apresentar durante fiscalização, que seria feita na chefia de gabinete pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Na fita, os policiais civis notaram uma ligação muito grande entre o coronel e "Mazuca". Falcão afirmou que falou com "Mazuca" pelo telefone e que precisava das notas para prestação de contas. Ele disse ainda que "Mazuca" era o fornecedor das notas e, por isso, ele estava cobrando. Falcão foi afastado da chefia de ganbinete. A polícia quer saber se as notas são falsas.
O filho do governador Francisco de Assis Morais Souza (PMDB), o Mão Santa, Francisco Morais Souza Júnior, o "Mão Santinha", chefe de gabinete do governo do Estado, disse hoje que o amigo "Mazuca" não tem ligação com o crime organizado, chefiado por Lima, acusado pela PF de forçar prefeitos do interior do Piauí a comprar notas fiscais frias.
"Mazuca é um empresário respeitado, sou amigo dele e estão querendo envolvê-lo nesta história suja para atingir a mim e a meu pai."
As investigações da PF são baseadas em quatro inquéritos instaurados para apurar enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, contrabando e roubo de cargas e carros. Além disso, a polícia também está apurando para saber se o coronel fez o seguro de vida para outras pessoas que foram assassinadas. A PF do Ceará e do Maranhão apura para saber quantos polciais militares dos dois Estados estão envolvidos com a quadrilha de Lima. No Piauí, na lista em poder das Polícias Civil e Militar, estão relacionados como investigados 38 policiais militares e civis, ex-policiais, 3 juízes, um promotor
3 advogados e 1 deputado estadual.

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