Coronéis e sindicalistas reúnem-se em clima cortês
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domingo, 22 de agosto de 1999
Por Fausto Macedo 
Brasília, 23 (AE) - Para definir os detalhes finais da Marcha dos Cem Mil, coronéis e sindicalistas reuniram-se hoje, durante 40 minutos, em meio a um aparente clima de boas-vindas, na sede da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.
Eles decidiram onde ficarão estacionados os ônibus, o trajeto que a multidão percorrerá a pé e a proibição de venda de bebibas alcoólicas na área da manifestação. Ao fim do encontro, com direito a água e café, todos juraram honrar a Constituição e respeito mútuo. O pessoal da CUT, com todo o respeito, até pôde chamar os militares de "companheiros". Os oficiais trataram os líderes do movimento de "srs".
"Sabemos do amor que os srs. têm pelo Brasil", afirmou o coronel Antônio Ribeiro da Cunha, comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal. "O protesto tem caráter político, mas não tem objetivo de depredar ou invadir prédios públicos", garantiu o presidente da CUT do Distrito Federal, José Zunga Alves de Lima. "Sempre nos preocupamos em fazer uma polícia voltada para os direitos humanos", emendou o comandante. "Tortura nunca mais", prometeu o secretário da Segurança, Paulo Castelo Branco, ex-integrante do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Discursos e acordos de cavalheiros à parte, os protagonistas da marcha estão adotando cuidados especiais para evitar surpresas na quinta-feira (26). A polícia infiltrou agentes entre os manifestantes com a missão de identificar focos de trabalhadores eventualmente dispostos a ações radicais. Atentos à manobra de espiões, os sindicalistas mobilizaram um efetivo de 200 homens, empenhados na identificação de "elementos da direita" que podem dar início a um badernaço. Nas palavras cautelosas do presidente do PT do Distrito Federal, Chico Vigilante, "são 200 seguranças desarmados, profissionais contratados pela CUT para impedir que algum companheiro se exalte".
A CUT anunciou que está confirmada a chegada de 1.560 ônibus - a polícia insiste num número menor: cerca de mil ônibus. A maior parte da frota deverá permanecer próximo ao Estádio Mané Garrincha.
"Seguramente, virão mais de 100 mil pessoas", calcula Lima. "Até o Congresso só irão os 60 integrantes da comissão com o abaixo-assinado."
O presidente da CUT acrescentou: "Não há disposição para que a manifestação avance até a Praça dos Três Poderes; vamos desencorajar aqueles que pretendem mudar o rumo."
O secretário de Segurança Pública informou que 20 mil homens estão de prontidão - 1,5 mil policiais militares irão para as ruas. A Polícia Federal (PF) e um batalhão de 800 praças e oficiais do Exército também estão de prontidão. "A tropa não agirá com truculência", reiterou o secretário. "Já vi manifestações pacíficas com 1 milhão de pessoas", comentou, referindo-se a mobilizações no exterior. "Participei da Marcha dos Cem mil no Rio, em 68; minha geração levou porrada para construir a democracia."
O chefe da polícia criticou o deputado Aécio Neves (MG), líder do PSDB na Câmara, que falou em "golpismo". "Não acho bom esse tipo de comentário; o deputado está tratando a questão como uma coisa política", disse Castelo Branco. "Eu trato de ordem pública e asseguro que a polícia de Brasília agirá com rigor, nunca com violência." O secretário admitiu temer possíveis invasões de repartições do governo. "O temor de invasão de prédio público é sempre presente."
Castelo Branco disse que a permanência dos ruralistas em Brasília o preocupa. "Os agricultores deveriam ter ido embora na semana passada; esperamos que saiam até o dia 25 (quarta-feira)." Para o secretário, os caminhões parados junto à Catedral de Brasília "prejudicam bastante essa manifestação".
No meio da tarde, a CUT sofreu o primeiro revés, ao ser autuada em 3.535 unidades fiscais de Referência (Ufirs) por "exibir e/ou distribuir material de propaganda sem autorização ou licença ou em desconformidade com a legislação vigente". O auto de infração foi lavrado pelo fiscal de posturas de Brasília Pedro Henrique Bertuci.


