Brasília, 9 (AE) - O Comitê de Política Monetária (Copom) se reunirá amanhã (10) em meio à expectativa de uma nova queda na taxa básica de juros (selic) do Banco Central, que há dois meses estacionou em 19% ao ano. A possível redução dos juros em algo entre 0,25 ponto porcentual e 0,50 aumentará para no mínimo 26,25% o corte total dos juros em um período de oito meses. Trata-se da menor taxa paga pelo governo desde o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, o que a torna um referencial para a construção de cenários sobre as probabilidades de crescimento sustentado da economia até o final do mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso.
A diretoria liderada pelo presidente do BC, Armínio Fraga, assumiu o comando da instituição em fevereiro, logo depois da mudança cambial e da demissão de dois presidentes da instituição, Gustavo Franco, que saiu no dia da desvalorização do real, e Francisco Lopes, demitido duas semanas depois, no final de janeiro. A nova equipe aumentou os juros para 45%, o que de certa maneira chancelava o cenário sombrio desenhado pela maxidesvalorização cambial. Mas simultaneamente adotou a primeira de uma série de providências destinadas a orientar os mercados em um quadro que já não tinha a âncora segura do câmbio fixo: o conceito de viés de baixa ou de alta, ou neutro, que indica os objetivos da política de juros em um período médio de 30 dias. Otimismo - Quando se reunirem amanhã, os membros do Copom (o presidente, os diretores e, em alguns casos, chefes de departamento ou técnicos do banco especialmente convidados) terão atravessado oito meses de prognósticos pessimistas sobre o Brasil e dois períodos recentes com a mesma taxa de juros de 19%
que teve viés neutro em setembro e viés de baixa a partir da reunião de 6 de outubro. A diferença agora é que não estarão mais em perspectiva as incertezas dominantes no bimestre passado. A visão dominante neste momento é permeada por um otimismo e uma confiança como há muito não se via.
A queda pequena esperada para a taxa de juros na reunião de amanhã - ou até mesmo a reedição da taxa de 19% - não reflete
é verdade, todo o atual otimismo do mercado. Ela se deve, entretanto, à racionalidade inerente às decisões de investimentos em um mercado hoje mais sensível às notícias sobre o comportamento dos preços. A alta da inflação em outubro, provocada principalmente por aumento nos preços dos combustíveis
da carne e do açúcar, contrariou expectativas e, consequentemente, imagina-se que deixou pouco espaço para um corte maior nos juros. Em contrapartida, a melhora no cenário internacional e o êxito obtido pelo governo em suas metas fiscais neste ano dão alguma margem à volta da política de redução dos juros.
O otimismo em voga nos mercados tem um viés interno e outro externo. É um fato que a eleição do candidato da oposição Fernando de La Rúa para a Presidência da Argentina foi um típico "não-evento", do ponto de vista das expectativas dos mercados. Há três meses imaginava-se que a sucessão de Carlos Menem se daria em um clima de turbulência e incertezas e que, se a ela se associasse uma alta dos juros nos Estados Unidos, o Brasil poderia ser atingido por uma nova crise externa. E aconteceu exatamente o contrário. A base interna desse otimismo se fundamenta em dados reais (por exemplo: a materialização do superávit primário estabelecido no acordo com o FMI) e em expectativas que não parecem, contudo, muito seguras sobre a consolidação do programa de ajuste fiscal.
Mas mercado é mercado. Assim como assume comportamento de manada nas crises, e o capital vai embora em busca de plagas mais seguras, quando as coisas parecem melhorar adota o mesmo comportamento de manada em louca disparada: compra tudo o que pode, apostando que, no fin al das contas, tudo dará certo. Há, porém, um detalhe que merece destaque: a leitura que orienta a alta nas bolsas nos últimos dias adota, também pela primeira vez em muito tempo, uma visão menos maniqueísta do processo político decisório. Avalia-se que amadureceu entre os congressistas, e no seio do próprio governo, a idéia de responsabilidade fiscal e de que os sistemas tributário e previdenciário precisam de reformas indispensáveis e que, por isso, cedo ou tarde, elas serão aprovadas e implementadas. É claro que ninguém está pensando em reformas que venham muito tarde.
A crença é de que a liderança que o presidente Fernando Henrique Cardoso mantém na esfera política é suficiente para obter resultados positivos, em matéria fiscal, ao longo dos próximos seis meses. A decisão que o Copom tomará pode consolidar essa visão se contemplar um novo corte nos juros.

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