Copérnico incita ladrões em todo o mundo
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Sergei Shargorodsky 
Moscou (AE-AP) - Cópias de um dos mais caros e raros livros do mundo vem desaparecendo, numa onda de misteriosos roubos que vem deixando perplexas as polícias de países como da ex-União Soviética e dos EUA.
As cópias em latim da primeira edição do livro com as pesquisas do astrônomo Nicolau Copérnico, "De revolutionibus orbium coelestium" (Uma revolução das esferas celestes), escritas em latim no século 16, vem desaparecendo de coleções de todo o mundo.
Na Polônia, um leitor disse que iria sair para usar o banheiro e escapou com o valioso volume. Um ladrão em Kiev, Ucrânia, furtou o livro usando uma falsa identidade policial. O último roubo do livro, publicado em 1543 e cujo valor chega a US$ 400 mil, foi descoberto no início do mês na Rússia.
A polícia russa diz que recorreu à Interpol na busca de ajuda para localizar o livro, que desapareceu da biblioteca da Academia de Ciências de São Petesburgo, mas não forneceu maiores detalhes.
Pelo menos sete das 260 cópias conhecidas da edição de 1543 do "De revolutionibus" desapareceram nos últimos anos, dentre elas uma cópia das Universidade da Illinois em Champaign-Urbana e do Instituto Mittag-Leffler em Estocolmo, Suécia, de acordo com Owen Gingerich, professor do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian em Cambridge, Massachusetts. Cinco cópias continuam desaparecidas.
Alguns policiais acreditam que uma rede de ladrões e colecionadores está por trás da onda de roubos, ou ainda que os livros foram roubados por ordem de algum colecionador.
Porém, Gingerich diz que não há evidências que possam sugerir uma conspiração internacional para roubar cópias do tratado, que descreve a então revolucionária teoria de Copérnico de que o Sol
e não a Terra, era o centro do Universo.
Gingerich vem trabalhando por um quarto de século compilando uma lista de todas as cópias conhecidas da primeira e segunda edições, uma tarefa que o levou a cidades e bibliotecas por todo o mundo, e o ajudou a encontrar pelo menos duas cópias roubadas.
Enquanto o livro é um tentador alvo para ladrões devido ao seu valor, é também "um título muito perigoso de se roubar", disse Gingerich durante uma entrevista na Internet, lembrando que sua lista pode ajudar a identificar qualquer cópia conhecida
o que torna arriscado tentar vender uma cópia roubada num leilão ou num mercado internacional de antiguidades.
Mesmo assim, os desaparecimentos continuam.
O roubo na Polônia ocorreu em novembro de 1998 na biblioteca da Academia de Ciências Polonesa em Cracóvia, onde um homem de cerca de 40 anos pediu para ler a cópia da primeira edição do "De Revolutionibus", avaliado em US$ 320 mil.
Depois de algum tempo, o leitor disse que precisava ir ao banheiro e desapareceu. Ele deixou atrás de si seus pertences e a capa do livro, disse o vice-chefe de polícia de Cracóvia, Eugeniusz Szczerbak.
Três meses antes, um homem saiu da biblioteca Nacional Ucraniana em Kiev carregando uma primeira edição do livro de Copérnico. O ladrão possuía uma aparentemente falsa identificação policial e parecia estar bem entrosado com as rotinas de segurança da biblioteca.
Bibliotecários disseram que ele pediu seis livros, dentre eles o de Copérnico. Então, devolveu os livros para assegurar o recibo, deu um tempo e então voltou para pedir mais livros, dentre eles o de Copérnico. O homem desapareceu com o livro raro pouco antes da hora do fechamento, aparentemente mostrando ao guarda o recibo inicial como prova de que havia devolvido os livros.
Gingerich ajudou a encontrar pelo menos duas cópias roubadas. Uma delas apareceu na feira de livros em 1997 e veio da biblioteca da Universidade Brno, na República Checa. Ele foi devolvido pela biblioteca, que o manteve durante a era comunista
ao original proprietário, um monastério Augustiniano, de onde havia desaparecido. Outra edição, que apareceu na Alemanha, veio da biblioteca do observatório Pulkovo, em São Petesburgo, Rússia, disse Gingerich.
A biblioteca "sofreu uma desastroso incêndio criminoso... e aparentemente alguém pensou que o inventário do local estava tão incompleto que a falta de um livro seria considerada com a perda durante o fogo", disse ele.


