Copa pode causar problemas cardíacos
Agência Folha
A expressão haja coração pode ganhar um outro sentido e deixar de ser apenas uma metáfora. Torcedores fanáticos podem conhecer amanhã à tarde, no jogo entre Brasil e França que decide o finalista da Copa do Mundo, o real significado da expressão.
Segundo os médicos, o coração de quem fica muito tenso durante o jogo pode sofrer abalos, principalmente o de quem já tem histórico de problemas com as artérias. Um estudo feito por um grupo de cardiologistas da Universidade de Harvard (EUA), publicado no ano passado em um jornal científico, constatou que, em situações de forte emoção, dobra o risco de a pessoa, mesmo não sendo cardíaca, sofrer um infarto.
No entanto, para quem nunca teve problemas, apesar da taquicardia e da elevação da pressão, o risco de infarto é muito pequeno. Segundo o estudo, a emoção forte, chamada tecnicamente de estresse mental, é o principal fator desencadeante de infarto, ou seja, um gatilho , no jargão dos médicos. Elas - as fortes emoções - foram apontadas como responsáveis por 18,8% dos casos de infarto relacionados a gatilhos.
Para o cardiologista do Incor (Instituto do Coração) Otávio Gebara, que participou da pesquisa, uma situação como a do último jogo da seleção - com a Holanda na última terça - pode causar um grande estresse mental, comparável aos examinados na pesquisa.
Dizer que uma forte emoção pode provocar um infarto sempre foi expressão sem muita comprovação científica, mas agora nós sabemos que situações extremas podem levar a problemas cardíacos , diz Gebara. Ele acabou vivenciando na prática os resultados de suas pesquisas. No dia 16 de junho, logo depois do jogo entre Brasil e Marrocos, que terminou em 3 a 0, um de seus pacientes teve morte súbita durante a comemoração da vitória.
Segundo o médico, o paciente, fanático por futebol, era cardíaco e hipertenso. Enquanto comemorava o resultado, ele começou a sentir uma forte dor no peito e, em minutos, tinha morrido. O que provavelmente provocou o infarto do paciente de Gebara foi uma grande descarga de adrenalina, hormônio liberado pelo sistema nervoso em situações de muita tensão. A adrenalina, ao causar o aumento dos batimentos cardíacos e a elevação da pressão arterial, deve ter provocado um estreitamento em alguma das artérias, interrompendo o fluxo sanguíneo.
A experiência de quem já fez plantão em pronto-socorro em final de Copa também aconselha a ter cuidado com o coração. A cardiologista do Incor Maria Cecília Damasceno, que faz plantão no pronto-socorro do Hospital das Clínicas, trabalhou no dia em que o Brasil levou o tetracampeonato da Itália nos pênaltis.
Durante o jogo, quase não havia pacientes. Cinco minutos depois do final, virou um inferno. Levamos três horas para colocar tudo nos eixos. Ela diz que, naquelas horas, atendeu quatro pessoas com distúrbios no coração. Maria Cecília diz ter atendido também casos de sufocamento, quando um torcedor, na hora do grito de gol, se engasgou com a comida e a cerveja e parou no PS.
Neste ano, no plantão do dia seguinte ao jogo entre Brasil e Holanda, Maria Cecília diz que também atendeu muitos pacientes querendo saber se estava tudo bem com o coração.





