Washington, 02 (AE) - Exatos cinco anos depois da dramática vitória de 1 a 0 do Brasil frente aos Estados Unidos, nas quartas-de-final da Copa de 1994, os dois países voltam a medir forças no futebol neste domingo, no estádio da Universidade de Stanford, em Palo Alto, Califórnia.
Desta vez, no entanto, são mulheres que vestirão os uniformes dos dois países. A partida é uma das semifinais da Terceira Copa Mundial de Mulheres. Campeãs do mundo e jogando em casa, sob a liderança de Mia Hamm, a "Ronalda", as americanas são as favoritas. China e Noruega decidem, em Foxboro, Massachusetts, a outra vaga para a final, no próximo sábado, em Los Angeles.
Chamadas pela imprensa americana de "as rainhas do samba", as brasileiras comandadas por Sissi são praticamente desconhecidas em seu próprio País, onde as mulheres são as primeiras a dizer que futebol é "coisa de homem". Mas, nas últimas três semanas, elas e as jogadoras das outras seleções mostraram mais talento do que os seus colegas homens para consolidar a penetração do esporte mais popular do mundo em sua última e potencialmente mais rica fronteira.
A partida deste domingo hoje deve quebrar o recorde de audiência televisiva do futebol nos EUA, que já pertence às mulheres. No domingo passado, 1,26 milhões de casas sintonizaram a ESPN2, uma emissora de tv a cabo especializada em esportes, para ver a vitória da seleção americana contra a Coréia do Norte. Na partida de abertura, em que os EUA massacraram o México por 7 a 1, a rede ABC registrou uma audiência de 1,7, equivalente a 1,69 milhões de casas. Para surpresa dos executivos da ESPN, cujos dois canais mostrarão trinta dos 32 dos jogos previstos, o Mundial de "soccer" feminino despertou mais interesse do que os jogos da temporada regular de hoquei no gelo, um esporte estabelecido que movimenta centenas de milhões de dólares por ano.
O público nos estádios também confirmou a popularidade crescente das moças de chuteira. Até a última rodada das quartas-de-final, haviam sido vendidos mais de 570 mil ingressos
a uma média de US$ 35 dólares.
Os jogos em que os EUA bateram a Alemanha por 3 a 2 e o Brasil venceu a Nigéria por 4 a 3, na quinta-feira passada, em Landover
próximo a Washington, levaram mais de 54 mil pessoas ao estádio - entre elas, o presidente Bill Clinton - e provocou um gigantesco engarrafamento de trânsito na área. Na melhor tradição do esporte, o líder americano levou uma solene vaia ao chegar - o troco das "soccer moms", as mulheres da faixa de 30 a 45 anos que apoiaram sua reeleição em 1996 mas não o perdoam pelo escândalo sexual que quase destrói seu governo.
Uma média de 65 mil pessoas pagaram ingresso para ver os três primeiros jogos da seleção americana. Nos jogos em que a seleção dos Estados Unidos não participou, a média de público pagante nos estádios foi de 21 mil, mais gente do que onze dos trinta times da liga profissional de baisebol conseguiram atrair por jogo na atual temporada. "Essa é a demonstração de que a Copa como um todo, e não apenas o time dos EUA, foi acolhida pelos fãs e representa um grande evento para o esporte feminino", disse Marla Messing, presidente do comitê organizador do Mundial.
O crescimento do fenômeno do futebol feminino relevado pelo surpreendente interesse despertado pela Copa levou o New York Times e outros grandes jornais a publicar editoriais sobre o assunto nos últimos dias. Ele promete ampliar ainda a popularidade de um esporte que já é praticado regularmente, em milhares de ligas organizadas, por mais de 10 milhões de crianças e jovens americanos e, no ano passado, movimentou mais de US$ 1,1 bilhão em vendas de uniformes, bolas e equipamentos.
De acordo com um levantamento anual feito pelo Conselho da Indústria do Soccer dos EUA, que congrega as empresas do setor, as meninas entre 7 e 18 anos constituem a maioria dos praticantes regulares do futebol, que é jogado nos fins de semana durante a primavera e o outono. São as mulheres, também, mais do que os homens, que dão força ao futebol nas universidades, de onde saíram as moças que formam a seleção americana.
Segundo o Wasshintgon Post, vinte e sete anos depois da adoção da lei conhecida como "Title IX", que proibiu a discriminação com base em sexo nas instituições de ensino, "o sucesso da seleção feminina de futebol dos EUA de futebol americana leva os esportes entre as mulheres a um novo nível". Messing não tem dúvida sobre isso e aposta na globalização do soccer entre as mulheres. "Acredito firmemente que, depois desta Copa, as federações nacionais de futebol darão mais recursos ao futebol feminino e o esporte crescerá em todo o mundo", disse ela.
Como tudo que dá certo nos EUA faz sucesso no Brasil, Sissi e suas companheiras talvez consigam, agora que estão embaladas pelo seu belo desempenho nos campos americanos, abrir mais espaço para o futebol feminino na terra do futebol.

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