Brasília - O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, afirmou ontem que as invasões vão continuar e que os sem-terra, além de debater metas de assentamentos, devem discutir um modelo econômico para o País. ''Vamos colocar o povo nos acampamentos para mostrar à sociedade que esta é a solução para o desemprego e para a geração de renda'', disse ele, ressaltando ser forte a presença no Brasil de ''grupos neoliberais'', cujo maior exemplo seria o agronegócio.
Ao defender a reforma agrária como solução para o desemprego, Stédile fez uma crítica indireta à política de reforma agrária do governo Luiz Inácio Lula da Silva, que depende fundamentalmente de recursos autorizados pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. ''Ribeirão Preto é onde Palocci foi prefeito e onde o ministro da Agricultura (Roberto Rodrigues) tem uma fazenda, e é onde existe mais gente na cadeia do que no meio rural.''
O discurso de Stédile foi o mais inflamado durante a conferência dos movimentos sem-terra, ontem, em Brasília, para discutir o Plano Nacional de Reforma Agrária. Ele pediu a todos que debatam as metas de assentamento e façam também ''uma reflexão'' sobre a questão econômica. Segundo ele, número é uma forma de o governo encurralar o movimento. ''Tem três formas de mentiras: não dizer a verdade, mentir ou usar estatística'', afirmou o coordenador do MST.
Ele também recomendou uma reflexão sobre o momento atual do País, que exige ações do povo para influenciar toda sociedade. ''Nossa força aumenta fazendo marchas, cercando ministérios e ocupando terras'', disse Stédile, assegurando que essa é a quarta vez que se tentou fazer reforma agrária no Brasil. ''Podemos ganhar ou ser derrotados'', acrescentou o coordenador do MST. ''Em 12 anos de neoliberalismo aumentou a produção, mas aumentou também a miséria no País.''
Stédile insistiu na tese de que não basta a reforma agrária se não houver mudança no modelo econômico predominante no País. ''O lote (de terra) já não tira mais o trabalhador da pobreza, o que vai tirar é o (novo) modelo econômico''.
Diante do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, ele disse que não se pode mais aceitar o argumento de que não há dinheiro para fazer a reforma agrária. ''O governo não pode mais dizer que a culpa é do FMI. O povo votou contra o governo de Fernando Henrique e o presidente Lula assumiu o compromisso de que o FMI não iria ter ingerência. O FMI que vá para onde quiser, mas aqui não vai mandar mais não.''
E, repetindo aos sem-terra que estão em Brasília o discurso de incentivo à ocupação de terra, disse: ''O que decide o volume de famílias assentadas é o povo, ocupando os latifúndios. A responsabilidade é mais nossa do que deles (governo).''

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