Brasília, 14 (AE) - O coordenador de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, Hélio Souza, tinha informações sobre a contaminação de plasma na Fundação Hemocentro de Pernambuco (Hemope) desde o fim de abril, mas não tomou providências. A identificação de bolsas de plasma contaminado foi relatada em reunião em que Souza e especialistas do setor discutiam formas de aumentar a produção de hemoderivados. "Não houve denúncia formalizada, só comentários, denúncia tem que ser por escrito", disse hoje.
Souza prefere não dizer quem fez a denúncia. "Uma pessoa comentou que chegaram bolsas contaminadas ao Hemope, mas não entrou em detalhes." O coordenador não vê erro em deixar de buscar informações sobre o o caso. "Não considero que tenha havido falha, não se pode fazer a coisa por boatos."
O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Waldir Paiva Mesquita discorda. Ele não estava na reunião no Ministério da Saúde, mas quando teve informações sobre o que havia sido conversado entrou em contato com a diretora de Processamento Industrial de Plasma da Fundação Hemope, Cândida Cairutas.
O encontro com Cândida ocorreu em 28 de abril. A reunião na Saúde, segundo Mesquita, teria ocorrido oito dias antes. O coordenador Souza não confirma a data, mas lembra que participou de pelo menos duas reuniões sobre produção de hemoderivados no fim de abril.
Na conversa de mais de quatro horas com o presidente do CFM, Cândida confirmou a identificação de bolsas de plasma contaminado na Hemope. E contou a Mesquita que desde setembro de 1997 vinha alertando a diretoria da fundação sobre a descoberta de plasma contaminado. A diretoria não teria repassado a informação à Vigilância Sanitária. Segundo Mesquita, Cândida teria notificado a direção seis vezes, entre setembro de 1997 e julho de 1998. Além disso, teria enviado ofício ao Hemocentro da Bahia.
No dia 29, acompanhado pelo senador Tião Viana (PT-AC), que também recebera denúncia sobre o caso, Mesquita procurou o ministro da Saúde, José Serra, que não foi encontrado. Por isso, segundo o presidente do CFM, ele procurou então o secretário de Assistência à Saúde, Renílson Rehem, com quem deixou um recado para Serra. "Disse ao secretário que havia um problema grave com o sangue no País e que só poderia ser tratado diretamente com o ministro", afirmou Mesquita. Apenas cinco dias depois, em 4 de maio, ocorreu a audiência com Serra, que imediatamente passou a tomar as providências.
Uma delas foi a interdição na unidade de processamento de plasma para a produção de albumina da Hemope, medida criticada por Mesquita e pelo senador Viana. "Interditar a fábrica de albumina é um equívoco administrativo", disse o senador, que é médico. "O problema está nos Estados, que enviaram hemoderivados falso-negativos, e não na fábrica, que tem um controle rígido de qualidade."
De acordo com Mesquita, a albumina não representa risco de contágio de HIV e hepatite, pois, a variação de temperatura durante o seu processamento debilita os vírus, deixando-os inativos.

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