Cooperativa popular ''dribla'' desemprego
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domingo, 04 de junho de 2000
Dimitri do Valle De Curitiba 
O desemprego acompanhou Rosângela Rodrigues Brandes durante seis meses. Aos 30 anos de idade, ela confessou que tinha perdido as esperanças. A falta de novas oportunidades de trabalho dava a impressão que o mercado tinha lhe fechado as portas. A partir de março passado, a ex-vendedora se engajou em um projeto de geração de emprego e renda. Ela é um das sete funcionárias/proprietárias de uma padaria comunitária.
Cooperativas populares iguais à de Rosângela Brandes começam a surgir na capital do Estado como alternativas para driblar o desemprego, que atinge cerca de 77 mil pessoas, segundo cálculo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Centro de Formação Urbana e Rural Irmã Araújo (Cefúria), uma organização não-governamental (ONG) de Curitiba, acompanha o trabalho de sete padarias comunitárias que funcionam na periferia da cidade. Juntas, elas empregam diretamente 65 mulheres que tinha perdido seus postos de trabalho. Hoje, elas são responsáveis pela produção de 2 mil pães por mês que são vendidos nos bairros onde as padarias estão.
Roseli Pereira de Freitas, 25 anos, nunca tinha colocado a mão na massa. Ela é sócia da padaria comunitária da Vila São Pedro, onde trabalha com a amiga Rosângela. Para Roseli, a maior dificuldade não é fazer o pão, mas comercializar o produto na vizinhança. O que é difícil, é superar a timidez para vender, revela. Se fosse a padaria, ela completaria um ano desempregado neste mês. Foi a minha salvação. Por enquanto, as remunerações serão pagas com cestas básicas.
Em fevereiro de 1998, 25 trabalhadores da construção civil de Curitiba foram dispensados dos canteiros de obras. Sem novas empreitadas pela frente, resolveram apostar na formação de uma empresa. Surgia a Cooperativa de Trabalhadores da Construção Civil, a Cootracon. Passados dois anos, a firma tem 48 cooperados e emprega cerca de 50 pessoas. As decisões sobre compras de material, execução de novos projetos e distribuição dos lucros são tomadas em assembléia. Se preciso, uma reunião a cada 15 dias.
O que me deixa satisfeito é os trabalhadores podem aprender outras especialidades, como gerenciar a cooperativa, comenta o presidente da Cootracon, José Domingos da Silva. O faturamento líquido mensal chega a R$ 9 mil. Desde o nascimento, o currículo da empresa já contabiliza 18 obras. Até o final do ano, a Cootracon deve finalizar um salão para o Centro Comunitário e de Proteção Alimentar Padre Miguel (Cecopam), na Vila São Pedro. O futuro prédio deve abrigar a partir do ano que vem vários negócios criados por ex-desempregados, como as padarias.
O presidente do Cecopan, Antônio Pereira Neves, acredita que a formação de empresas populares é uma das maneiras de superar a falta de oportunidade no mercado formal de trabalho. Para a situação econômica, é a saída, diz Neves. Muito antes de se pensar no cooperativismo, o líder do bairro lembra das histórias de mutirões para plantar verduras em terrenos baldios da vila. Para economizar nas despesas, moradores como Neves, reuniam-se em grupos, calculavam custos e faziam compras conjuntas nos supermercados. Chegávamos a ter uma economia média de 40% no orçamento de todos.


