São Paulo - Permitir ou não que os filhos convivam com cães e gatos é uma dúvida que atormenta a vida de muitos pais. O senso comum diria que os pêlos dos animais podem causar alergias, mas um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana mostra que a história não é bem assim.
Um grupo de pesquisadores analisou 400 crianças durante sete anos e descobriu que aquelas que estiveram expostas a dois ou mais animais de estimação tiveram a metade das chances de se tornarem alérgicas.
Reações alérgicas são causadas quando um anticorpo chamado imunoglobulina-E se associa a uma célula sanguínea chamada célula-mestre. Ao se ligar ao anticorpo, a célula-mestre libera substâncias químicas que causam as inflamações.
Há pelo menos mais quatro estudos recentes sugerindo que o convívio nos primeiros anos de vida com cães e gatos possa permitir que o corpo construa defesas contra os agentes capazes de produzir alergia (alergênios).
Mas atenção: os pediatras aconselham os pais a manterem as crianças que já são alérgicas longe do convívio desses animais para evitar o agravamento dos sintomas da inflamação.
O cientista que liderou o estudo americano, Dennis Ownby, da Faculdade de Medicina da Geórgia (EUA), disse acreditar que as endotoxinas (toxina encontrada no interior da célula bacteriana) encontradas na boca de um cachorro ou de um gato possam ter uma influência positiva no sistema imunológico da criança.
Para Ownby, os resultados do estudo estão de acordo com o que os médicos chamam de ''hipótese da higiene''. A tese é que o sistema imunológico de pessoas que crescem em um ambiente limpo demais, sem contaminantes ambientais, pode reagir em excesso quando se depara com substâncias que provocam alergia.
Segundo Charles Naspitz, presidente do Departamento de Alergia e Imunologia da Sociedade Brasileira de Pediatria e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), essa tese não se aplica ao Brasil porque a maioria da população vive em condições de higiene precárias e nem por isso está livre de alergias.
Segundo Naspitz, um estudo feito há três anos com 30 mil estudantes brasileiros mostrou que 20% deles eram alérgicos. O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking de países com maior prevalência de doenças alérgicas, perdendo para o Reino Unido, a Austrália, a Nova Zelândia e os EUA.
Naspitz diz que o estudo, que envolveu 60 países, revelou ainda que nos últimos 30 anos houve um aumento na prevalência de asma. Uma das hipóteses para explicar esse aumento seria a do excesso de higiene.

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