São Paulo, 23 (AE) - Após anunciar a demissão de 2,8 mil funcionários, a Ford teria feito pelo menos uma contratação, e justamente de um sindicalista da Central Única dos Trabalhadores (CUT): José Lopez Feijóo, presidente da CUT Estadual São Paulo e diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A denúncia é de um metalúrgico da Volkswagen, que concorre na eleição da direção do sindicato. A comissão de fábrica da própria Ford confirmou a recente contratação.
O interesse da montadora em contratar um dirigente sindical da CUT quando está demitindo está causando polêmica na central. Uma parte dos dirigentes interpreta o fato como prova de "promiscuidade do sindicato com as empresas".
As informações no caso são bastante desencontradas. A Ford informou que Feijóo pertence a seu quadro de funcionários desde 1992, o que neutralizaria a denúncia. Contudo, material do próprio Sindicato dos Metalúrgicos do ABC mostra que Feijóo pertencia ao quadro de funcionários da Kuboyama em 1996, como eletricista mecânico. Na condição de empregado dessa pequena metalúrgica é que ele concorreu na última eleição sindical.
Já segundo a comissão de fábrica da Ford (que apóia a chapa da situação), a contratação teria sido feita no início deste ano, a pedido do sindicato. Isso, para que Feijóo, que não pertenceria mais à base dos metalúrgicos há alguns anos, por conta do fechamento da Kuboyama, pudesse competir na eleição do sindicato, com primeiro turno marcado para abril.
Feijóo foi procurado, por meio de sua assessoria de imprensa, mas não deu entrevista.
O líder da chapa de oposição da Volkswagen, Celso Routulo, que tem como principal bandeira "o fim da política de parceria entre o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e as montadoras de veículos", foi o autor da denúncia.
O secretário da comissão de fábrica da Ford - representação interna dos funcionários -, João Rodrigues, confirmou a contratação de Feijóo, a pedido do sindicato em fevereiro deste ano. Segundo ele, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC discutiu isso com a comissão de fábrica e com membros da Cipa, e a miltância teria autorizado o sindicato a negociar com a montadora a contratação do dirigente.
"Não há como esconder isso", disse Rodrigues. "Consideramos importante manter o Feijóo no movimento sindical, mas podemos entender que a forma como isso foi feito pode ser considerada polêmica." Segundo Rogrigues, o acordo de contratação do dirigente traduz uma relação melhor da Ford com o sindicato e não um alguma troca de favores.
O assunto já está tendo repercussão na direção da CUT, especialmente entre integrantes de tendências políticas, que há muito tempo fazem oposição à direção sindical dos metalúrgicos do ABC. "Isso é uma expressão do grau em que chegou a promiscuidade entre o sindicato do ABC e as montadoras", disse José Maria de Almeida, diretor-executivo da CUT nacional, que sustenta a veracidade da denúncia. "A Ford fez um favor enorme para o sindicato e a gente se pergunta se isso vai ser cobrado e de que forma."
O diretor da CUT Estadual São Paulo, Dirceu Travesso, lembrou que o caso se torna mais grave quando analisada a situação dos demitidos da Ford: algumas centenas acabaram saindo em um pacote de demissões voluntárias e 1,5 mil estão afastados, com redução de ganhos, sem saber se voltarão para a empresa ou se perderão seus empregos.
Segundo ele, a história de que Feijóo estava sem fábrica há algum tempo é de conhecimento de todos, razão pela qual o argumento de que ele é antigo funcionário da Ford não procederia.
O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC está com um novo sistema de eleições, que teoricamente evitaria o chamado sindicalismo profissional: apenas quem tem vínculo empregatício com as empresas da base pode concorrer.

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