Contratação de mestres e doutores não garante qualidade do ensino
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segunda-feira, 13 de dezembro de 1999
Por Demétrio Weber 
Brasília, 13 (AE) - Contratar professores com mestrado e doutorado não garante necessariamente qualidade ao ensino universitário. Mais de 20 cursos foram reprovados este ano no Exame Nacional de Cursos (Provão), com os conceitos D ou E (os piores numa escala de A a E), apesar de ter em seu corpo docente pelo menos 80% de mestres e doutores.
"O fato de haver professores titulados não significa que o curso esteja bem estruturado", avalia a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - órgão do Ministério da Educação (MEC) responsável pelo Provão -, Maria Helena Guimarães de Castro. Para ela, um bom projeto pedagógico é indispensável para articular a ação dos docentes.
Mesmo contando com 82,6% de professores titulados (30,4% doutores), a Universidade do Grande ABC ficou com o conceito D em matemática. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), os 98,55% de docentes com mestrado ou doutorado em engenharia química também não impediram o conceito D, o mesmo obtido pela Universidade de Ribeirão Preto, que tem 80,9% de titulados. Na Universidade Federal do Pará, no câmpus de Altamira, 100% dos professores de matemática são mestres ou doutores, mas o curso ficou com E no Provão.
O presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Éfrem Maranhão, entende que a ênfase da pós-graduação brasileira sempre esteve na formação do pesquisador e não do professor. Essa realidade, segundo Maranhão, vem mudando nos últimos anos. Além disso, ainda há resistência por parte de doutores em dar aula nas turmas de graduação. "O curso pode ter muitos professores titulados e a maioria pode não dar aulas na graduação ou lecionar apenas na disciplina ligada à sua área de pesquisa", concorda Maria Helena.
Investimento - A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) determina que, a partir de 2004, as universidades deverão ter pelo menos um terço de seus docentes com o título de mestre ou doutor. A regra vale para a instituição como um todo, de modo que essa proporção poderá ser maior ou menor em cada curso separadamente.
Nos chamados cursos profissionalizantes, como Direito, Medicina ou Jornalismo, por exemplo, é incentivada a contratação de profissionais de reconhecido saber prático. "A experiência profissional, nas áreas profissionalizantes, deve ser tão considerada quanto a titulação", diz Maria Helena.
O vice-reitor da Universidade do Grande ABC, Valmor Bolan, atribuiu o mau desempenho de seus estudantes ao fato de o novo projeto educacional ser recente - ficou pronto no começo do ano - e a problemas de infra-estrutura. Bolan, no entanto, está convencido de que o investimento em pessoal tratá benefícios para os alunos. "Em três anos nunca tiraremos menos de C", aposta o vice-reitor. Em janeiro será inaugurado o novo câmpus da universidade, reunindo os cursos, que atualmente se dividem em seis endereços diferentes. "Essa divisão dificulta a gestão e prejudica a qualidade do ensino", diz Bolan.
Na Universidade São Marcos, o curso de matemática ficou com D, apesar de todos os professores terem mestrado ou doutorado. Segundo a coordenadora dos Cursos de Educação, Ana Maria Navajas, os estudantes que fizeram o exame eram alunos já formados em licenciatura em ciências (1.º grau) que tiveram de voltar a estudar para validar seus diplomas."Eram alunos que estavam conosco havia apenas seis meses quando fizeram o Provão, em junho", lamenta.


