Curitiba- As testemunhas de defesa e de acusação começaram ontem a prestar depoimentos conturbados no julgamento de três dos sete acusados de terem matado Evandro Ramos Caetano, de seis anos, num suposto ritual de magia negra, no dia 7 de abril de 1992, em Guaratuba, litoral paranaense. Estão sendo julgados desde segunda-feira os pais-de-santo Osvaldo Marcineiro e Vicente de Paula Ferreira e o ajudante de terreiro Davi dos Santos Soares. Eles são apontados como executores do crime a mando de Celina e Beatriz Abagge, mãe e filha do então prefeito Aldo Abagge. As duas chegaram a ser absolvidas em 1998, num julgamento que durou 34 dias, mas que foi anulado por determinação judicial, que acatou argumento do Ministério Público de que os jurados erraram ao dizer que não existiam provas de que o corpo encontrado no matagal mutilado era mesmo de Evandro.
O julgamento foi acompanhado por dezenas de autoridades, entre promotores, advogados e delegados de polícia. Entre as presenças marcantes estava a de representantes do Conselho de Direito à Pessoa Humana, órgão ligado ao Ministério da Justiça. Pedro Montenegro, que acompanha o caso das mortes e castrações de crianças em Altamira (PA), disse que já houve abertura de inquérito policial para verificar a participação da gaúcha Valentina de Andrade (que mora em Londrina) em mortes ocorridas no Paraná, por onde ela divulgou a seita Lineamento Universal Superior (LUS). A Polícia Federal (PF) teria se comprometido a verificar as suspeitas envolvendo Valentina (absolvida da acusação de crimes em Altamira) no Estado.
Os depoimentos mais fortes prestados ontem foram o do tio de Evandro, Diógenes Caetano dos Santos Filho, 48 anos, e do ex-delegado geral da Polícia Civil, Adauto Abreu de Oliveira, que iniciou as investigações pelo Grupo Tático Integrado de Grupamento de Repressão Especial (Tigre) criado para atuar em crimes com reféns. Adauto disse que não reconhece a condução dos trabalhos da Polícia Militar que conseguiu uma confissão ''voluntária'' dos acusados e a prisão de todos eles menos de um mês após iniciadas as investigações. ''Nossos trabalhos apontavam para um desfecho oposto daquele que foi apontado pela PM'', afirmou o delegado.
Ele duvidou que o corpo encontrado fosse mesmo de Evandro (exame de DNA garantiu 99,997% de probabilidades do corpo ser do garoto). Quando chegou ao local percebeu o estado adiantado de putrefação. ''Cinco dias não são suficientes para que estivesse naquele estado. Além disso, as roupas que estavam nele eram de Evandro, mas ficavam curtas'', afirmou. Adauto confessou desconfiar que o próprio tio fosse o autor do assassinato.

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