Rio, 13 (AE) - A queda brusca nas exportações de cigarros não alterou o volume contrabandeado para o Brasil, que continua representando 30% das unidades vendidas no País. Até 1998, metade do contrabando era de cigarros exportados que reingressavam ilegalmente. Agora, fábricas clandestinas que proliferaram nas fronteiras estão suprindo toda a demanda. As informações são do presidente da Souza Cruz, Flávio de Andrade.
Ele estima que o mercado formal deve encerrar 1999 com 100 bilhões de unidades vendidas, enquanto os clandestinos chegarão a 40 bilhões. Com a alíquota de 150% sobre as exportações de cigarros à América Latina e Caribe, aplicada a partir de janeiro deste ano, a empresa perdeu 96% das vendas externas. O governo estimava, com isso, frear o contrabando.
De janeiro a setembro de 1998 as vendas de cigarros da Souza Cruz ao mercado externo somaram US$ 249,5 milhões, mas fecharam os nove primeiros meses deste ano com US$ 9,9 milhões. As exportações de fumo não foram taxadas. "O Brasil tem 280 marcas clandestinas, contra 85 formais", disse o executivo. Segundo ele, a Souza Cruz também perdeu exportações para o leste europeu, porque sua controladora, a British American Tobacco, passou a fabricar localmente.
"Nossas exportações de cigarros praticamente terminaram
mas o contrabando não, e as perdas de arrecadação do governo com a informalidade chegam a R$ 1 bilhão", atacou Andrade. "O Brasil entrou com o mercado e o outro lado da fronteira, com produção e emprego". A Souza Cruz chegou a estudar uma redução de preços para concorrer com os clandestinos, mas, com o repique da desvalorização cambial neste semestre, os planos foram interrompidos. "Uma redução é viável com o dólar no patamar de R$ 1,70", explicou.
Andrade criticou ainda a pouca competitividade do cigarro nacional, por causa da tributação, que representa em média 68% do preço do produto. No ano que vem, a empresa deverá investir entre US$ 80 milhões a US$ 90 milhões em projetos como reequipamento da principal fábrica, em Uberlândia (MG). Esse era o montante previsto para este ano mas, por causa da desvalorização cambial, os investimentos foram cortados pela metade.
Até setembro, a Souza Cruz havia investido US$ 24,1 milhões, queda de 62,2% em relação aos primeiros nove meses do ano passado. Andrade afirmou ainda que a Souza Cruz está trabalhando com uma capacidade ociosa de 35% a 40%, algo que não existia em 1998.
A queda nas exportações puxou uma redução de 19,2% nas vendas físicas da Souza Cruz. Mas no mercado interno as vendas da empresa entre janeiro e setembro cresceram 4,9% - acima dos 4 6% de crescimento da indústria de cigarros. A Souza Cruz tem 83 1% do mercado nacional.
A desvalorização cambial, no entanto, está beneficiando os resultados da empresa. Por causa, sobretudo, de saldos de caixa relativos à movimentação no exterior - antes de janeiro -
o resultado financeiro de janeiro a setembro cresceu de R$ 227 4 milhões para R$ 295,5 milhões. O lucro líquido aumentou de R$ 437,7 milhões, para R$ 524 milhões.
Segundo o diretor-financeiro da Souza Cruz, Milton Cabral, a operação também caminha bem, como resultado da reestruturação promovida pela empresa. O quadro de funcionários, por exemplo, foi reduzido em 19,3%. O lucro operacional nos nove meses cresceu de R$ 210,3 milhões para R$ 228,5 milhões.

mockup