São Paulo, 26 (AE) - O longa "Terra de Deus", baseado no conto "A Enxada", do escritor goiano Bernardo Élis, acaba de ter a exibição confirmada no 2º Festival Internacional de Cinema Ambiental, de Goiás, que está com inscrições abertas. O filme, dirigido por Iberê Cavalcanti, é estrelado por Stepan Nercessian e Lucélia Santos. Conta a história de uma família de meeiros, pessoas que são autorizadas pelo proprietário a ocupar e cultivar um pedaço de terra, pagando em troca metade do que for colhido.
O problema é que eles têm prazo para iniciar o plantio e Cipriano (Nercessian) é tão pobre que não possui uma simples enxada para trabalhar. Sua angustiante busca pela ferramenta, na qual a tensão aumenta à medida em que o tempo se esgota, lembra a saga do protagonista de "Ladrões de Bicicleta", obra-prima do italiano Vittorio de Sica no auge do neo-realismo. A grande expectativa é conferir se o filme irá reproduzir o clima do conto.
O próprio diretor Cavalcanti encarrega-se de dizer que esse não é seu objetivo principal. "O conto de Bernardo Élis é muito forte e acho que meu coração não iria suportar uma filmagem mantendo esse clima", explica. Assim, conversou com o autor e procurou acrescentar um lado mais místico, com toques de fantástico. "Para tanto, aumentei a participação do filho do casal, que no livro era um mero figurante e agora passa a ter relação com certas visões do pai." Segundo ele, o ator Marcelo Morais, de 16 anos, tem tudo para ser uma grande revelação.
A direção de arte procurou reproduzir, no filme, o tipo de luz usado na obra de outro artista goiano, o pintor Siron Franco. "Ele chegou a ser nosso consultor", explica Cavalcanti. Se depender dos consultores, o filme promete. O próprio Bernardo Élis foi consultor do roteiro e, segundo o diretor, aprovou o resultado final. A música é de André Moraes, vencedor do prêmio de melhor trilha no festival de Brasília do ano passado, por seu trabalho em "No Coração dos Deuses".
"Terra de Deus" custou R$ 1,9 milhão, arrecadado pelas leis de incentivo à cultura. Cavalcanti declara-se satisfeito com as possibilidades de financiamento que as leis permitem. Mas reclama da falta de uma política mais eficiente para a distribuição dos filmes. "Produzir bons filmes e não fazer com que cheguem ao público é como fazer jornais sem que haja bancas", compara. Para ele, o cineasta brasileiro precisa ser criativo e bem articulado para ter seu trabalho visto. "O diretor hoje é obrigado a ir de cidade em cidade, com o filme debaixo do braço, como se fosse um mascate, repetindo um costume de 50 anos atrás."
Outra alternativa são as parcerias. "A Pastoral da Terra deve exibir o filme para seu público, o que representa um número muito grande de pessoas e estou planejando fazer sessões em escolas." Dois grandes exibidores, um francês e um suíço, estão interessados nos direitos de exibição para a Europa e as negociações já estão bastante adiantadas.